5 de março de 2007

A história de uma roda de samba. Capítulo 2

O terreiro estava em festa. A roda de samba era contagiante. A alegria que reinava no local em nada lembrava o clima de enterro de alguns meses atrás. Naquela época, o reco-reco de bambu e o repique estavam seqüestrados. Além disso, o violão estava com uma depressão terrível, não queria saber de nada, só sofria.

O tempo passou. Tudo se acertou: os instrumentos foram libertados, a depressão do nosso amigo foi superada por um grande amor e a roda de samba voltou a dar espetáculo. Qualquer coisa era motivo de comemoração. Desta vez, a festa era de despedida.

O violão, que estava arrebentando nas rodas de choro, iria passar uma temporada na Espanha. Sua namorada, a flauta, ficou triste, mas sabia que a experiência na Europa seria muito boa para o seu parceiro. Afinal, ele iria entrar em contato com novos ritmos e novas técnicas.

Na véspera do embarque, a festa foi completa. Integrantes da escola de samba, do terreiro de macumba e da roda de choro também estavam presentes. Uma festa digna da admiração que todos tinham por ele. Ao final do pagode, só os mais resistentes continuavam fazendo barulho. A maioria já havia capotado.

Chegou a hora do embarque. Para todos, a promessa de trazer muito virtuosismo da Espanha. No avião, ficou pensando na flauta. Era difícil dizer para ela, mas a verdade é que ele já não a agüentava mais. Ela só chorava. Tudo bem, chorinho é legal, mas o violão cansou. Quem agüenta tanta choradeira?

Chegando em Madri, foi recepcionado por dois violões. Descansou um pouco e logo embarcou para Sevilha. Era lá que iria aprender novas técnicas de violão. Era lá que ele iria conhecer um novo amor (ou melhor, dois grandes amores).

No Brasil, os instrumentos seguiam suas vidas normalmente. As rodas de samba e de macumba continuavam a sacudir os terreiros. Já o chorinho... Não estava muito bom, não. A flauta não estava conseguindo solar direito. Tinha muita saudade do violão. Percebendo isso, o bandolim, chegou junto dela e falou: "Ô Dona Flauta, não me leve a mal não, mas você não está tocando bem. Quer tirar uma folguinha, descansar, esperar passar esta saudade louca?". Ela não teve dúvida: tirou uma licença...

Aos poucos, a rotina da roda de samba começou a ser alterada. A flauta, convidada pelo cavaquinho, abandonou seu retiro e começou a tocar na roda de samba. Estava sem cabeça para solar, mas podia acompanhar tranqüilamente a levada do samba. O cavaquinho adorou. Era muito amigo do violão, mas tinha um amor platônico pela flauta. Iria ficar mais perto dela.

Os instrumentos que compunham a roda de samba tinham uma amizade muito forte, quase fraternal. Isto não impedia que conflitos ocorressem... Durante a época em que o violão esteve fora, muita coisa aconteceu.

Em Sevilha, o violão começou a freqüentar espetáculos de música flamenca. Ficou impressionado com as técnicas requintadas dos violões de lá. Entretanto, o que realmente o impressionou foram as castanholas. Na hora, pensou na flauta. Pensou naquela choradeira que não agüentava mais. Pensou, pensou, pensou... E correu pro abraço... As castanholas eram encantadoras demais para ficarem sozinhas.

Findado o espetáculo, o violão convenceu as castanholas a irem para o quarto do seu hotel... E, depois de uma noite de muito amor, o violão fez uma propôs a elas: "Por acaso vocês não querem vir para o Brasil comigo?". Era uma proposta absurda, a flauta o esperava no Brasil. Mas elas aceitaram. Como seriam recepcionadas no Brasil?

Muita coisa aconteceu no Brasil durante a época em que o violão esteve fora. Os instrumentos começaram a abrir novos horizontes e a roda de samba começou a ficar cada vez mais em segundo plano.

O repique (aquele mesmo que um dia foi seqüestrado) conheceu uma cítara em uma apresentação de música indiana. Deixou para trás seu antigo romance para começar a se apresentar com ela. Veja como são as coisas: a cuíca, disputada a tapas outrora, agora estava abandonada. Ela ficou injuriada com essa história e se mandou para os EUA. Lá iria ganhar dinheiro com apresentações nas ruas de Nova York.

A deserção não parou por aí... O pandeiro se juntou a um grupo de samba-rock. Ele adorava a roda, mas precisava colocar dinheiro em casa. Sua mulher, a caixinha de fósforo (que só ia ao samba de vez em quando) já o pressionava para arranjar um emprego mais decente.

O atabaque cansou de tocar samba e voltou para a macumba... A roda estava se desintegrando apesar dos apelos do surdo, que cantava a todo o momento: "Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...".

Chegava o dia da volta do violão. A roda estava em crise... O repique, a cuíca, o pandeiro e o atabaque haviam abandonado o samba. Cada um tinha a sua desculpa, mas uma coisa era certa: a tirania do surdo impossibilitava qualquer harmonia na roda. Ele se considerava o líder e todos tinham que fazer as coisas do jeito dele.

Quando o violão desceu do avião todos estranharam a presença das castanholas junto dele. A flauta já foi enquadrando seu namorado: "Quem são essas lambisgóias?". A resposta do violão: "Elas vieram conhecer o Brasil e o samba". A flauta, com uma pulga atrás da orelha, foi sucinta: "No momento que elas entrarem na roda, eu saio". O violão, que já não agüentava mais a flauta chorona, se sentiu aliviado e falou: "Então, adeus".

A flauta não acreditava no que estava vendo. Acabara de ser trocada por duas castanholas.
Decidiu nunca mais freqüentar essas rodas boêmias. Iria para uma orquestra... Com isso, mais uma baixa se confirmava na roda.

E não era a última... O violão foi vetado de participar da roda. Sua atitude desagradou a todos. Como ele pôde fazer aquilo com a flauta? Um canalha como ele não tinha vez no samba.

Com a partida da flauta e do violão, o cavaquinho passou a compor desesperadamente. Era a maneira que ele encontrou para não enlouquecer. Mas ele teria de esperar um pouco para mostrar suas músicas. O futuro da roda de samba não era nada animador.

Sobrara apenas o tamborim, o surdo, o cavaco, o sete-cordas, o agogô e o ganzá... Era uma roda com muitos problemas e muita disputa interna. Não se conseguia nem mesmo ensaiar. A prepotência do surdo irritava a todos.

Deu-se então um golpe final. O agogô, o tamborim e o ganzá resolveram voltar para a escola de samba. Lá estariam livres do surdo. Já o sete-cordas e o cavaco, foram convidados para gravar um disco. O prato e a faca, sem terem para onde ir, voltaram para a cozinha. O surdo ficou sozinho...

Após muito samba, a roda de desintegrou. O surdo, sozinho no terreiro vazio, repensou todas suas atitudes. Mas era tarde. Estaria morta a roda de samba? Seriam superados os conflitos internos? Só tempo resolveria esta questão.

Um comentário:

raulnegrette disse...

Muito bom esse artigo.... isso serve para todos q se dizem sambista... a humildade e a essencia do samba, com diz um grande amigo meu " temos q saber chegar".... abracos

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O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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