7 de novembro de 2007

Cristina e Terreiro Grande ao vivo (2007)

NA VITROLA

Depois de longa demora, volto eu a postar um disco na Vitrola do Piruca para vocês embriagarem seus ouvidos. Sempre com a cara do Couro do Cabrito, ou seja, sempre com samba bom.

Esse é o primeiro lançamento a entrar para a seleta discoteca do blog. Não é à toa. Cristina Buarque e Terreiro Grande ao vivo é um disco revolucionário. Quinze sambistas gravando um disco ao vivo em formato de roda de samba – um samba emendado no outro – com a sonoridade dos sambas de terreiro das escolas de samba cariocas da antiga . No meio desta fuzarca toda, porque eles tocam na gravação do disco como se estivessem numa birosca, está a grande Cristina Buarque. Há quanto tempo ficamos esperando por isso? Um disco de samba com cara de roda de samba!

Antes de formarem o Terreiro Grande, os integrantes do Terreiro Grande faziam parte do Grêmio Recreativo de Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, que era mais do que uma agremiação de sambistas. Era um projeto social, para o samba e para a sociedade. Ao mesmo tempo que recuperavam a história de grandes sambistas do passado, atuavam junto à comunidade carente de São Matheus, berço do projeto. Palavras de Roberto Didio, surdista do Terreiro Grande e um dos idealizadores do GRTP Morro das Pedras, em 2001, ano de fundação da agremiação: “O Grêmio tem como ideal maior defender, cultuar e pesquisar o samba e suas tradições. O trabalho social acompanha nossa trajetória. Ele faz parte do nosso histórico de fundação.”

Regularmente, como forma de resgate e preservação, o Morro das Pedras fazia homenagens a grandes compositores das escolas de samba que tinham sua obra caindo no esquecimento. Compositores como Manacéa, Aniceto da Portela, Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Alcides, Alberto Lonato, Mijinha, Chico Santana, Nilton Campolino, Aniceto do Império, Antenor Gargalhada... Resgatando sambas lindos para serem revividos, com toda a emoção que carregam, nas rodas de samba.

Em janeiro de 2005, uma das homenagens seria para o portelense Alvaiade. Para esta roda, convidaram Cristina Buarque, que também faz um trabalho de resgate de sambas de terreiro no Rio. Ela se convenceu a ir porque seria uma homenagem a um ótimo compositor e porque o samba seria do jeito que ela gosta: sem palco e sem microfone.

Ela foi, não se arrependeu e começou a freqüentar o Morro das Pedras. Mais que isso, começou ajudá-los nas pesquisas.

Em fevereiro de 2007, quando Cristina recebeu um convite para se apresentar no Teatro FECAP, em São Paulo, ela logo pensou na rapaziada do Morro. Como eles haviam encerrado as atividades no final de 2006, alguns deles (só quinze) se reuniram novamente sob o nome de Terreiro Grande.



A temporada de shows foi incrível. Duas semanas. Eu fui. Fui já sabendo que eu iria ver uma coisa linda, pois eu já conhecia as rodas de samba do Morro das Pedras. Lá eram mais de trinta pessoas na roda. Agora seriam quinze. O suficiente.

Foi um show de samba diferente do que costumávamos ver. Os shows de samba quase sempre têm bateria, baixo, e um arranjo de show mesmo. Às vezes, vemos alguns sambistas se apresentarem com um pequeno conjunto de samba (como o Quinteto em Branco e Preto, por exemplo). Mas eu nunca havia visto um show com formato de roda de samba. Saí impressionado. E não fui só eu. Todos ficaram. Lembro-me que na época houve um comentário assim na Agenda Samba-Choro: “De onde vieram estes marcianos?”. Foi realmente emocionante. Fiquei muito feliz, na época, em saber que de um daqueles shows iria sair um CD.

E saiu mesmo. Um disco totalmente independente, feito (e pago) com o suor da rapaziada. Que vale cada centavo de quem compra. O lançamento do disco foi em setembro. A mesma maravilha que foi em fevereiro.



O disco (show) foi divido em quatro blocos. Ou seja. São quatro “put-purris” gigantes, que totalizam 37 músicas em mais de 70 minutos do samba mais autêntico possível. Eis as músicas.

Bloco 1
1 - O meu nome já caiu no esquecimento (Paulo da Portela)
2 - Eu não sou do morro (Francisco Santana)
3 - Não deixo saudade (Manoel Ferreira - Roberto Martins)
4 - Você me abandonou (Alberto Lonato)
5 - Quantas lágrimas (Manacéa)

Bloco 2
6 - Já chegou quem faltava (Nilson Gonçalves)
7 - O mundo é assim (Alvaiade)
8 - Jura (Adolfo Macedo - Marcelino Ramos - Zé da Zilda)
9 - Meu primeiro amor (Bide – Marçal)
10 - A lei do morro (Antônio dos Santos - Silas de Oliveira)
11 - Quem se muda pra Mangueira (Zé da Zilda)
12 - Assim não é legal (Noel Rosa de Oliveira)
13 - Na água do rio (Manoel Ferreira - Silas de Oliveira)
14 - Esta melodia (Bubu da Portela - José Bispo)
15 - Ando penando (Alcides Dias Lopes)
16 - Perdão, meu bem (Cartola)
17 - Desperta Dodô (Heitor dos Prazeres - Herivelto Martins)
18 - Na água do rio (Manoel Ferreira - Silas de Oliveira)
19 - Vou navegar (Ernâni Alvarenga)

Bloco 3
20 - Inspiração (Candeia)
21 - Banco de réu (Alvaiade - Djalma Mafra)
22 - Você chorou (Francisco Alves - Sylvio Fernandes)
23 - Lenços brancos (Picolino da Portela)
24 - Sentimento (Mijinha)
25 - Conselho da mamãe (Manacéa)
26 - Brocoió (Zé Cachacinha)
27 - Quando a maré (Antônio Caetano)
28 - Confraternização 1 (Walter Rosa)

Bloco 4
29 - Portela feliz (Zé Ketti)
30 - Desengano (Aniceto da Portela)
31 - A maldade não tem fim (Armando Santos)
32 - Embrulho que eu carrego (Alvaiade - Djalma Mafra)
33 - Vida de fidalga (Alvaiade - Francisco Santana)
34 - Fui condenado (Mijinha - Monarco)
35 - Teste ao samba (Paulo da Portela)
36 - Tu me desprezas (Paulo da Portela)
37 - Cantar pra não chorar (Heitor dos Prazeres - Paulo da Portela)



No primeiro bloco, o samba começa só com os pandeiros de Luizinho e Renato “Bom Rapaz” e a Cristina cantando O meu nome já caiu no esquecimento de Paulo da Portela. Aos poucos vão entrando o violão de 7 cordas de Cardoso, o violão de 6 cordas de Lelo, o cavaquinho de Tuco, o surdo de Roberto e o tamborim de Careca. Todos cantam no coro e o bloco segue neste embalo. Destaque para um samba inédito de Francisco Santana (o Chico Traidor).

Eu não sou do morro (Francisco Santana)

Eu não sou do morro
Mas eu gosto de samba
Eu fui criado
No meio de gente bamba
A minha vida, como é tão bela
Oh minha, minha querida Portela!

Conversa puxa conversa
E da conversa nasce a luz
Não acreditando
Venha em Oswaldo Cruz

Vem ver como é tão lindo
Venha sentir prazer
Que a velha Portela
É aquela até morrer
(Tu deves saber)

No segundo bloco é que o couro começa a comer. Começa com o lindo samba Já chegou quem faltava de Nilson Gonçalves. Quando eles vão repetir o samba e Cristina puxa o breque “Já chegou” entra em palco os outros oito sambistas que estavam de fora: Edinho no cavaco, Alfredo na cuíca, Neco no reco-reco, Wilson Miséria no prato e faca, Pereira e Jorge nos tamborins (somando a Careca), Eri na caixa de fósforo e Bocão no coro (e só). Nesta hora, a emoção é grande. No show, eu fui às lágrimas. Muito lindo.

Já chegou quem faltava (Nilson Gonçalves)

Já chegou quem faltava
Quem o povo esperava chegar
Viemos apresentar o que a Portela tem
Muitos sambas bonitos,
Baianas com ritmo
Harmonia também

Hoje essa Portela que vocês ouvem falar
O mundo inteiro soube consagrar
Mesmo derrotados cantaremos com alegria
Essa nossa doce melodia


Pouco depois a revelação: Tuco, um dos cavaquinistas canta muito! E um dos sambas mais belos (e curtos) de todos os tempos. Daqueles que dá gosto cantar em coro na roda de samba. O samba é Jura.

Jura (Zé da Zilda, Marcelino Ramos e Adolfo Macedo)

Foi uma jura
Que fiz de nunca mais amar
Ai, ai, ai, meu Deus
Pra que que eu jurei
Todo mundo sabe
Quebrei minha jura
Quebrei

E seguem os sambas de Bide e Marçal, Silas de Oliveira, Noel Rosa de Oliveira, Anescarzinho do Salgueiro... Só tem fera no disco. Lá pelas tantas, ainda no bloco 2, o mais longo deles, aparece um samba do Cartola lindo, que eu desconhecia. Neste samba, Luizinho e Tuco cantam (lindamente, e com muita potência) os versos.

Perdão meu bem (Cartola)

Perdão, meu bem
Atacou meu coração,
Falei demais
Sou bom rapaz
No modo de proceder
Perdão porque
Se acabar nossa amizade
Perdão, meu bem
Sinto dores de saudade

Se você não reconhece
O meu arrependimento
Pois, podes crer, meu amor que
O que eu digo é sem fingimento

Às vezes cheio de ódio
Fala-se o que não se deve
São palavras de amor ofendido
Que não se escreve

São tantos lindos sambas aqui neste disco que se eu for falar de Cristina Grande e Terreiro Grande ao vivo, hoje eu não vou terminar. Mas vale a pena destacar mais alguns.

Por exemplo, o samba inédito (até então) de Candeia chamado Inspiração. Uma jóia rara.

Inspiração (Candeia)

Eu não sei o que faria
Sem ti a minha alegria
Não, não haveria, não
Vim dizer nessa canção
Que és rima e poesia,
És doce melodia,
És a inspiração
Quando estou distante
Eu me sinto perdido
Nas notas dissonantes
Tu és os meus sustenidos
Também és meus bemóis
Se estamos a sós
És o princípio e o fim
És tudo para mim

O que é isso? Que samba é esse? Meu Deus do céu. Isto divino!! Seguem os lindos sambas Banco de Réu de Alvaiade e Djalma Mafra (ótimo compositor que eu não conhecia mas pude conhecer melhor no
IMS), e mais outras brasas que vocês irão poder ouvir aqui no Couro a partir de hoje.

Segue neste embalo o bloco 3 e o bloco 4, este recheado de sambas do ótimo Portela Passado de Glória, da Velha Guarda da Portela (talvez um dos melhores discos de samba de todos os tempos).

Para encerrar, sambas de Paulo do Portela, nosso professor: Teste ao samba, Tu me desprezas (samba inédito) e Cantar para não chorar (este em parceria com Heitor dos Prazeres). Segue a letra do inédito (até então):

Tu me desprezas (Paulo da Portela)

Tu me desprezas,
Tu me abandonas,
Tens o prazer de me ver abandonado
Não faz mal, ó meu benzinho
O mundo gira
E na virada
Ainda te espero com carinho


Que disco é esse? Que maravilha. Eu já disse pro meu parceiro Bigode e para sua pequena Stela (através deles eu travei conhecimento dessa rapaziada humilde e ponta firme) e agora falo pra vocês: este disco já nasceu histórico.

“O Terreiro Grande reúne amigos que tocam e cantam sambas pouco conhecidos dos compositores antigos ligados às escolas de samba. Eles vêm do Grêmio Recreativo Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, da periferia de São Paulo, fundado em abril de 2001 e que encerrou as atividades em dezembro de 2006.
Eu os conheci em janeiro de 2005, numa homenagem ao portelense Alvaiade.
Os sambas vinham naquela cadência de quem não tem pressa, cada um melhor que outro, quase sempre iniciados pelo cara do cavaquinho, um homem pequenino com um vozeirão daqueles que não existem mais. O Tuco canta com o coração, um coração enorme. E o coro segue com força e emoção.
Uma roda de samba com eles pode durar mais de 8 horas sem repetir o repertório. A música, para eles é alegria e diversão – todos trabalham em outras áreas – e não existe aquela vaidade e hipocrisia tão comuns hoje em dia.
Com eles os meus olhos vertem lágrimas. (Na moita)”
Cristina Buarque

“Em tempos de superexposição, onde a padronização cultural é lei, comemoramos a delicadeza transgressora deste trabalho.
Literalmente, não pagamos para ver, pagamos para ouvir! E o fizemos prazerosamente. Cuidando da memória, sempre, sem descuidar da revolução.
Nos solos e terças, num gole ou embargo de voz, o primoroso cantar da Cristina (Chefia!) reuniu todos esses fantásticos compositores num chão de terra boa – de ares não condicionados – o terreiro! Terreiro Grande!
Ainda: valiosíssimo encontro de amigos! Na cara da desumanização, no vagar, ergue a escassa lamparina da utopia. Representando, sobretudo, nossa gratidão ao estado de graça maior que a música alcança: o Samba!
Roberto Didio – Terreiro Grande


Compre o disco aqui e aqui

7 comentários:

Beto da Laje disse...

Peruquinha,

Parabêns, narrou o grande cd, relatou sobre o Terreiro Grande e descreveu bunito meu chegado.

Abraço

Chico Brito disse...

Boa Piruca!

Anônimo disse...

Esse conjunto e a Cristina arrepia a galera no teatro.
É ótimo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Falô

Stela disse...

Belíssimo texto, digno de um excelente jornalista e sambista.
Vamos todos em busca do conhecimento...
Beijos!!!
Stela.

Francisco Arlindo Alves disse...

Eu estive em 2004 no G.R.T.P. Morro das Pedras em São Mateus e minha sensação foi indiscritivel, eu que sou de extremo da zona leste de sp (itaquera) lembro que não contive as lagrimas ao ver um trabalho cultural tão bonito e de tamanha grande qualidade as das enormes dificuldades. Fico muito muito triste em saber agora que o Morro das Pedras não existe mais. Ameniza minha tristeza saber que este trabalho deixa frutos. Mas vai fazer uma falta imensa pro pessoal do bairro do Rodolfo Pirani e pra todos que tiveram o privilegio de ver e se emocionar.

floresta disse...

lindo disco...
só dá pra ouvir online? nao dá pra baixar pro meu computador?? nao acho nenhum link pra baixar.
parabens pelos sambas!!
abraços
leandro floresta

Fernando disse...

Vocês teriam a letra de Banco de réu (Alvaiade e Djalma Mafra)?? Abraços!

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