22 de fevereiro de 2008

Portela na Avenida (Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

Sempre gostei do samba “Portela na Avenida”, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro. Mesmo antes de escutar a maravilhosa gravação da Clara Nunes, já conhecia a música das rodas de samba. É um samba forte, carregado de emoção, contagiante.

Recentemente, lendo a biografia da Clara Nunes (muito bem escrita por Vagner Fernandes), travei conhecimento de como se deu a composição da obra-prima. Para quem não sabe, Paulo César Pinheiro, o maior letrista da história da MPB, era casado com a Clara.

Segue o depoimento do PC Pinheiro para o biógrafo a respeito do samba:

“Em 1970 estourou um samba do Paulinho da Viola, o ‘Foi um rio que passou em minha vida’. Depois disso, ninguém fez samba falando da Portela. E ela era doida pra gravar um que falasse. Aí ela me pediu:

— Não dava pra você fazer um samba falando da Portela?

— Mas eu não sou Portela, eu sou Mangueira.

— Mas você sabe fazer. E depois que o Paulinho fez aquele samba, ninguém faz mais. Eu já pedi a outros compositores da Portela e ninguém fez. Não dá pra você fazer pra mim?

— Posso tentar. Não te prometo, mas posso tentar.

Aí falei com o Mauro Duarte, que era portelense:

— Mauro, a Clara pediu um samba pra Portela. Então, você que é portelense e meu parceiro me ajuda nessa. Mas eu não tenho idéia não. Até porque o samba do Paulinho é definitivo. É difícil fazer um samba para a escola depois desse.

Dias depois, o Mauro veio com uma idéia musical, um pedacinho:

— Isso aqui é algo que pode ser o tal samba

— Canta aí

Eu gravei e fiquei pensando naquilo. Um dia, andando na sala, me deparei com a imagem do Espírito Santo, acima do altar. A Clara gostava muito de coisas antigas. Por onde passava comprava algo antigo. Em uma dessas, trouxe um nicho de 200 anos, uma espécie de oratório. Dentro dele, você abria a porta e tinha Nossa Senhora Aparecida, com um monte de orixás misturados. Eu ficava andando e pensando como fazer o samba. E na hora em que bati o olho na Nossa Senhora, linda, eu vi o manto azul e branco, que são as cores da Portela. Quando veio isso na minha cabeça, resolvi misturar o religioso com o profano, que era o estilo dela. A pomba do Espírito Santo virou a águia da Portela, o manto de Nossa Senhora virou bandeira, e por aí eu fui. O samba virou sucesso da noite pro dia. Mas quando o compus quis mostrar, na verdade, o que era a Clara. Uma cantora que estava na rua, em um bloco, na igreja, no terreiro, no kardecismo (...)”

Pois bem, esta semana, fuçando nos meus discos, encontrei a versão de “Portela na Avenida” gravada no disco “Cristina Buarque e Mauro Duarte”. Fiquei arrepiado com a cadência, com o lindo coro desta gravação. Eu sei que o samba consagrado foi feito pra Clara cantar e sei que a versão original é a mais clássica, mas vou colocar aqui a versão posterior, porque acho mais bela.

Portela na Avenida (Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro)


Portela
Eu nunca vi coisa mais bela
Quando ela pisa a passarela
E vai entrando na avenida
Parece
A maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida
Que vai se arrastando
E o povo na rua cantando
É feito uma reza, um ritual
É a procissão do samba abençoando
A festa do divino carnaval

Portela
É a Deusa do samba, o passado revela
E tem a velha guarda como sentinela
E é por isso que eu ouço essa voz que me chama
Portela
Sobre a tua bandeira, esse divino manto
Tua águia altaneira é o Espírito Santo
No templo do samba

As pastoras e os pastores
Vêm chegando da cidade, da favela
Para defender as tuas cores
Como fiéis na santa missa da capela

Salve o samba, salve a santa, salve ela
Salve o manto azul e branco da Portela
Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval

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Um comentário:

juliana disse...

Poderia arrumar essa música pra mim?!!
meu mail é juliana.mello84@gmail.com

obrigada

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