2 de abril de 2007

Arranjos de Samba - II

Falei um monte de coisa sobre os arranjos de samba e não falei o mais importante: o que faz o arranjo ser bom ou ser ruim não são os instrumentos, e sim o arranjador.

Disse que alguns álbuns do João Nogueira têm bateria e baixo e não ficaram bons. Fizeram arranjos ruins. Os discos do Paulinho também têm baixo e bateria, mas com arranjos bons.

O disco clássico de João Nogueira e Paulo César Pinheiro tem arranjos do maestro Cristóvão Bastos. Não é um arranjo de roda de samba, com batucada, é uma coisa mais "civilizada"... Mas como é belo. Um capricho.

Pixinguinha foi o maior arranjador da antiga e foi o primeiro a colocar instrumentos como cuíca e prato e faca nos arranjos de samba.

Outro arranjo espetacular é o que Dino 7 Cordas fez para os dois primeiros discos de Cartola. Quem escuta aquele violão predominando na harmonia sabe que Dino fez um ótimo trabalho.

Antes de ver que instrumentos usaram na gravação do seu disco de samba, verifique quem fez os arranjos. Se for um bom arranjador, pode ficar tranqüilo que será um bom disco de samba.

Um comentário:

Beto disse...

André,
Fiquei ligado no seu blog através de uns comentários feito num outro blog, talvez na "cápsula"...?..

Primeiro sobre eu: sou etnomusicologo morando em Los Angeles e estou escrevendo minha tese de doutorado sobre o samba raiz. Achei seus comentários interessantes e até baixei o seu trabalho de pesquisa e li-o em uma sentada.

Queria comentar que sua opinião sobre o samba de terreiro (que você tenta definir na sua pesquisa) versus o tal chamado "pagode" que você admite não gostar (no outro blog). Tenho que concordar com alguns outros postantes que você tem um certo preconceito sobre o tal "pagode" sem dar uma chance, ou querer tê-lo no mesmo nível de qualidade do que os que você chama de samba de terreiro.

O estilo de samba que hoje se chama de pagode (eu o chamo de samba, samba raiz, e samba de terreiro, tanto como de pagode) também nasceu como resposta à exclusão de sambistas das escolas de samba. Só que os caciqueanos introduziram uma instrumentação genial e inovadora. E sim, eu acho que o samba tem o direito de se modernizar, inovar, e ainda ser raiz.

Com o sucessos de sambistas como Beth Carvalho com o novo gênero, a indústria fonográfica tentou se apropriar do estilo para vendê-lo em massa para o povo consumidor. A idéia, infelizmente deu certo, e hoje temos o tal "pagode" que não é nem pagode, nem samba, e nem raiz.

Mas, os caciqueanos (FDQ, Zeca, Almir e compania) merecem respeito. O sucesso deles não veio barato e eles estavam fazendo samba "sem grana e sem glória" por muitos e muitos anos antes de serem "descobertos" pela madrinha do pagode, Dona Beth.

Outra coisa, talvez você não sabe porque o Zeca faz muito sucesso com discos gravados, mas ele ficou conhecido nas rodas de bambas do Cacique porque o pivete branquinho (naquela época ainda era moleque) entrava nas rodas de partido alto e metia bronca com os melhores dos improvisadores do gênero...

Finalmente, notei que você escreveu sobre arranjos e disse "não é roda de samba com batucada, é uma coisa mais civilizada..." Será que você não notou o eurocentrismo de seu comentário? É por isso que você não gosta de pagode? Você acha que o samba mais corrido, mais batucado falta "capricho"? Ou será que você acha que o samba de terreiro têm mais é que ser folclore mesmo, continuando com o mesmo padrão depois de décadas, sem inovação, sem modernidade... Não esqueça que o Estácio também foi inovador quando mudou a cadência do samba amaxixado... O Noel também foi inovador quando letrava os "segundos" nas canções que antes só tinham a "primeira"...

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O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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