Relembrar e reverenciar um clássico, lançado há 46 anos. O
palco do Sesc Belenzinho reuniu, no último fim de semana, o sambista Paulo
Vanzolini, sob a companhia de Cristina Buarque, Cláudia Moreno, Ana Bernardo e
Carlinhos Vergueiro, para cantar onze sambas e uma capoeira. O espetáculo, que
integrou o Projeto Álbum, dedicado à revivescência de discos que marcaram época
na história da Música Popular Brasileira, foi uma grande exaltação ao samba vanzolineano - criado em São Paulo, mas genuinamente brasileiro - e cumpriu bem o propósito de exaltar o LP lançado há 46 anos.
"Onze Sambas e Uma Capoeira" foi o primeiro álbum
dedicado exclusivamente a Paulo Vanzolini, nome de destaque na música brasileira. Produzido pelo publicitário Marcus Pereira e pelo músico Luis
Carlos Paraná, contou com arranjos de Toquinho e Portinho e registrou interpretações
dos irmãos Chico e Cristina Buarque - ambos em início de carreira. Também participaram do disco Mauricy
Moura, Adauto Santos e Cláudia Moreno, além do próprio Luis Carlos Paraná.
Vanzolini, que completará 89 anos em abril, estava feliz com
o espetáculo-tributo, assistido pela reportagem do Couro do Cabrito no sábado, 23 de fevereiro. Sentado
em uma mesa de bar, criteriosamente arranjada sobre o palco, com um copo de
cerveja à sua frente, observava tudo e cantarolava as suas canções.
O espetáculo contou com arranjos de Ítalo Peron, violonista,
e trouxe ao palco os músicos Pratinha (flauta), Adriano Busko (percussão),
André Tinoco (trombone) e Maycon Mesquita (trompete). Peron foi feliz nos
arranjos, que destacavam os instrumentos de sopro. Seu violão firme e constante,
sem arroubos de solos, baixarias e bordões, por outro lado, permitia que os
intérpretes pudessem explorar ao máximo suas potencialidades técnicas. Já a
percussão (pandeiro, surdo, agogôs, e bateria, tudo junto) não chegou a
comprometer, ainda que o autor destas linhas considere que, em um espetáculo de
samba, o ideal é que cada instrumento de percussão seja tocado por um músico diferente,
garantindo, assim, mais ritmo, molho e balanço.
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A única composição interpretada pelo homenageado da noite
foi a Capoeira do Arnaldo, que, segundo o compositor, foi criada em apenas um dia,
em resposta a um amigo, Arnaldo Horta, que afirmou que até Carybé - pintor
ítalo-argentino, mas baiano de corpo e alma - compunha mais capoeiras que ele.
Com a idade avançada, sem a mesma divisão para cantar dos tempos idos, Vanzolini
cantou em um ritmo mais apressado, o que não comprometeu sua interpretação.
Carlinhos Vergueiro esbanjou categoria, cantado os sambas
com grande bossa e uma divisão que o afirma como um grande intérprete no meio
do samba. Cristina Buarque também estava muito à vontade (ela só participa de
espetáculos que realmente gosta), bem como Ana Bernardo e Cláudia Moreno (esta,
não brilhou nem tampouco comprometeu). Cabe destaque para o roadie, que além de
deixar tudo nos conformes, enchia os copos (principalmente o da Cristina) de
cerveja dos sambistas.
Findadas as doze canções do disco (onze sambas e uma
capoeira), todas clássicas – Samba erudito, Amor de trapo e farrapo, Chorava no
meio da rua, Juízo final, Ronda, Napoleão, Capoeira do Arnaldo, Praça Clóvis,
Morte e paz, Leilão e Volta por cima -, houve, ainda, tempo para dois sambas
que não integram o disco clássico: Tempo e espaço (interpretado por Ana
Bernardo e aplaudido por Vanzolini), e Toada do Luís (por Carlinhos Vergueiro).
Gênio de nosso cancioneiro, um dos maiores sambistas de
todos os tempos, compositor de samba que rompe as fronteiras do regionalismo –
é mais que paulista, é um sambista brasileiro -, Vanzolini merece todas as
homenagens. A ele, as flores em vida.
Avaliação: **** (ótimo)
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