1 de março de 2010

Tuco e Batalhão de Sambistas em um final de semana histórico

Era grande a expectativa que cercava as duas apresentações de Tuco e seu Batalhão de Sambistas no Centro Cultural São Paulo, neste último fim de semana. Primeiro porque se tratava de uma reunião de ótimos e jovens sambistas com alguns nomes que fizeram e ainda fazem a história do samba: os convidados Nelson Sargento e Monarco, além das ilustríssimas presenças de Cristina Buarque e Francinete, que integraram o coro feminino. Segundo porque seria gravado, nestes dois dias de samba, o cd Peso é Peso. E toda esta expectativa - justificadamente alta, graças à alta qualidade musical do Tuco (que a cada dia canta melhor) e de seus acompanhantes - foi devidamente correspondida. Duas apresentações históricas, registradas para um posterior e também histórico álbum.

No sábado, dia de estréia, me acomodei na primeira fila da aconchegante Sala Adoniran Barbosa, e fiquei aguardando o início, pensando: “Qual será o repertório? Com certeza serei surpreendido com inéditas e raras...”. Sob aplausos, logo foram todos entrando no palco. Tuco à frente, puxando seu batalhão. Jorge Garcia e Alfredo Castro (grandes amigos!), ambos também integrantes do Terreiro Grande, comandaram a cozinha com uma dupla de tamborins que há muito não se via. Como há muito não se via também uma dupla de pandeiros como a de Rafael Toledo e Beto Amaral, este último integrante do Cupinzeiro. Na marcação do surdo, que é o coração de uma roda de samba, Donga, antigo companheiro de Tuco do Morro das Pedras, mostrou-se impecável. Os “arames”, a harmonia, que deu toda a sustentação melódica para esta batucada pesada, foi magistralmente composta por Lucas Arantes (cavaco), Junior Pita (violão) e João Camareiro (violão de 7). Os três demonstraram um entrosamento digno dos grandes regionais do passado. E ainda havia espaço pra mais gente: Loré, Fernando Paiva e Janderson formaram o coro masculino, enquanto as já citadas Francinete e Cristina Buarque integravam a “pastoragem”, ao lado de Keila Santos.

Foi com este escrete que Tuco cantou um samba (inédito) de Paulo da Portela, composto em 1937, após ter sido eleito Cidadão Samba. Na sequência, brasa em cima brasa. Em meio a muitos inéditos (a maioria) alguns sambas já gravados, mas pouco conhecidos: Na floresta (Cartola e Silvio Caldas), Ri por último quem ri melhor (Noel Rosa de Oliveira), Ironia (Ismael Silva - Nilton Bastos- Francisco Alves) entre outras. Destaque para a interpretação deste samba-choro de Ismael em que os músicos repetiram o arranjo original. Espetacular. (Confira a versão original destes três sambas abaixo, interpretados por Silvio Caldas, Albertinho Fortuna e Francisco Alves, respectivamente).



Para esta primeira apresentação, Nelson Sargento foi o convidado especial. Entre alguns sambas mais conhecidos de sua obra, como
Falso amor sincero e Homenagem ao Mestre Cartola, e outros nem tanto (como a parceria com Marreta, Quando Xangô pegar o apito), o legendário sambista de Mangueira cantou um inédito samba-resposta ao clássico Fiz por você o que pude, de Cartola. Nelson Sargento assim falou sobre o samba: “Quando Cartola fez o samba Fiz por você o que pude, ele disse: ‘e no fim deste labor, surge outro compositor, com o mesmo sangue nas veias’. Eu e o meu parceiro Marreta resolvemos fazer uma resposta. E no samba falamos: ‘Talvez eu seja o valor que o amigo citou com o mesmo sangue nas veias’.” De fato, neste samba os dois compositores da Mangueira mostraram que eram aptos a seguir os passos do mestre. Hoje, o meste é Nelson Sargento e Tuco é o “jovem valor, com o mesmo sangue nas veias”. Mais alguns sambas foram apresentados e encerrou-se a primeira apresentação.

Após aquele tradicional momento de cumprimentos e felicitações aos músicos, encontrei com a Cristina Buarque, que falou sobre o Tuco, o resgate de sambas antigos e a nova geração de sambistas. “Tuco é um grande talento que resolveu seguir a carreira e eu torço muito por ele”, disse, enquanto terminava de fumar um cigarro no camarim. Chefia, como é carinhosamente chamada por seus amigos de Terreiro Grande, avalia como muito importante o trabalho de resgate de sambas de terreiro da antiga. “Tem um monte de samba que só o Monarco conhecia e que hoje foi cantado aqui, será registrado e muitos poderão conhecer. O Tuco gosta dessas velharias, né?”. Por fim, ela se mostrou muito satisfeita com a nova geração. “Hoje sou eu quem aprende muito com eles, também”, disparou.

No dia seguinte, retornei para acompanhar o desempenho do grande mestre Monarco. Ele que, num bate-papo informal que tivemos ano passado disse: “Tem um rapaz de São Paulo, o Tuco, que é muito bom...” Mestre e discípulo dividiriam o mesmo palco. E naquele final de tarde de domingo, todos os sambistas estavam mais à vontade, sem a natural pressão de uma estréia. O repertório foi quase o mesmo do dia anterior: muitos sambas em meio a um maxixe do Mano Edgar, do Estácio de Sá e uma inusitada uma marcha-rancho de Paulo da Portela.

Pouco antes de Monarco entrar em cena, Tuco disse, emocionado, que há catorze anos atrás assistira pela primeira vez uma apresentação do sambista da Portela e que estava tendo a honra de, naquele momento, dividir a cena com ele. Monarco, não deixou por menos e após duas cantar duas músicas afirmou, feliz, sentindo que estava diante de um ótimo cantor: “Esse menino tem futuro!”.

Quando os dois decidiram cantar Secretário da Escola, parceria do convidado da noite com Picolino, Monarco revelou: “Este samba tem uma história engraçada. Eu compus há muitos anos com o Picolino, mas foi o Tuco quem me ensinou”. Notava-se aí o grande empenho de Tuco para resgatar e “pescar”, como ele próprio definiu, os bons sambas do passado.

A apresentação caminhava para o fim. Mas havia tempo para algumas surpresas. Primeiro foi Cristina, que a pedido de Monarco, cantou Quantas Lágrimas, de Manacéa, seu maior sucesso. Depois foi a vez de Francinete, ex-integrante do conjunto As Gatas, cantar Tal dia é o batizado de Cabana, samba gravado por ela própria no disco Viva o samba, de 1967 e muito cantado nas rodas de samba da Paulicéia. (confira a gravação abaixo, com acompanhamento da Portela).


E quando findou o samba, foi hora de comemorar. Então foram todos para o bar da frente. Eu, o pessoal do Samba de Mauá, da Vila Prudente, os Amigos do Samba, Alfredão, Tuco, Junior Pita, que com seu violão tocou alguns sambas para as (ótimas) Adriana Moreira e Ilessi cantarem, Lucas Arantes, Donga, Loré, Barão do Pandeiro (com sua indefectível gravata borboleta) e muito mais gente que estava ali, na Sala Adoniran Barbosa, presenciando um momento histórico, e depois foi molhar as palavras no primeiro boteco.

A lembrança do grande espetáculo que se passou ainda está fresca na memória. Mas logo teremos o disco e daí então teremos a certeza de que o samba viveu, neste final de fevereiro de 2010, um grande momento. Tratado com respeito e louvor, como foi ensinado pelos mestres.

Avaliação: ***** (espetacular)

Fotos: Marcelo Martins
Confira o Myspace do Tuco & Batalhão de Sambistas

10 comentários:

Artur de Bem disse...

Ainda bem que a platéia estava na parte escura e ngm me viu de boca aberta e sorrindo o show inteiro, estático!

Tava tão bobo que não aplaudi as músicas. Desculpa, Tuco!


Paulicéia, Ô!!!!

Anônimo disse...

Belíssima apresentação!

Rodrigo Santiago disse...

Belo texto que somado aos votos de êxito ao amigo Tuco e multiplicado pelo amor ao Samba, levou-me a emoção. Uma pena não poder estar presente, mas fico na espera desse álbum para brindar mais uma vitória do nosso Samba!

Rodrigo Santiago
Uberlândia-MG

Marcello Laranja disse...

Gostaria, antes de mais nada, de cumprimentar o autor - ou autora - do texto escrito para a coluna. Muito bem feito. Parabéns...! Em seguida quero também cumprimentar essa moçada fantástica "Tuco e Batalhão de Sambistas" que faz samba na veia, samba na batata, como diria Billy Blanco. O repertório é extremo bom gosto, sambas ainda um tanto quanto desconhecidos do grande público que, normalmente não se interessa, contentando-se em destacar somente os que sabem as letras, o que, convenhamos, é péssimo. Mas é típico de brasileiro, infelizmente...! É isso, samba bom, sacudido, milimetricamente ensaiado, não se erra uma nota, um acorde, uma batida, nada...absolutamente perfeito. Tive o privilégio também de estar na primeira fila da Sala Adoniran Barbosa ao lado de minha esposa e do Barão do pandeiro. Só lamento uma coisa: não sabia que após o show todos iriam para o bar em frente, senão estaria junto. Mas tudo bem, valeu mesmo...dez...!

Marcello Laranja (Clube do Choro de Santos)

Marília disse...

Belo texto irmão. O show foi realmente um espetáculo!

Murilo Mendes disse...

É... Perdi.

Anônimo disse...

ó que cantar mavioso que tu tens!

Marília disse...

Transmita meus parabéns ao fotógrafo Marcelo Martins, nosso querido Martô!!! Belas fotos.

Fernando Paiva disse...

Grande André, foi um prazer te conhecer. E salve o Couro do Cabrito!

André Carvalho disse...

O prazer foi meu, Fernando!

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