3 de junho de 2008

O samba paulistano

A Paulicéia já foi chamada de “túmulo do samba” por Vinícius de Moraes, o poetinha. Até hoje, muitos cariocas não admitem (ou fingem não acreditar) que paulista saiba fazer samba. A levada é diferente, as raízes de um lugar são diferentes das raízes do outro, a melodia, a harmonia, a inspiração, tudo varia de um lugar para o outro. É preciso ir atrás, resgatar, descobrir, garimpar novos talentos do samba na cidade de São Paulo. Entretanto, quando se vive o samba em toda sua intensidade, os nomes surgem. E com eles o samba puro, autêntico, sem deturpações. Do jeito que o mestre Candeia gostaria de ver e ouvir.

Paulinha Sanches, Paulinho Timor, Marcelo Homero e Edu Batata são alguns desses nomes bons de São Paulo. Jovens, talentosos e, acima de tudo, sambistas, valorizam o que há de mais sublime no samba: a cadência, os versos ricos em melodias, a inspiração espontânea e, como não poderia deixar de ser, a harmonia, tanto aquela que vem da música quanto aquela que envolve a todos, nas rodas de samba.

Paula Sanches é uma das mais talentosas e promissoras cantoras que surgiram no meio do samba nos últimos tempos em São Paulo. Diferente das jovens cantoras de MPB que pipocam por aí (e que cantam qualquer coisa, sem uma linha específica), Paulinha é uma cantora romântica. Romântica no sentido mais puro da palavra: é uma cantora de samba porque ama o samba, porque vive o samba e porque cultua o samba. É uma sambista da linhagem de Isaurinha Garcia, Linda Batista e Carmen Miranda. Suas interpretações marcantes de sambas sincopados do passado a diferenciam das outras “sem linhagem”. No samba “Não Bula na Cumbuca” de Paulinho Timor, ela esbanja categoria. Gravando com descontração, como se estivesse numa roda de samba na “Meirinha”, Paulinha mostra pra que veio: pra continuar o legado riquíssimo do samba, para mostrar que há novas (e boas) cantoras de SAMBA surgindo e, principalmente, para tocar a sensibilidade humana com interpretações de sambas tão comoventes. Uma cantora de categoria, uma sambista de S maiúsculo.

Quem interpreta a outra composição de Paulinho Timor, “Aquela Maria” é o sambista Marcelo Homero. Cantor, ritmista dos bons e compositor, Marcelo é um dos fundadores do Projeto Nosso Samba, de Osasco, que tem como propósito resgatar e preservar o samba de terreiro autêntico e atualmente toca surdo e canta no conjunto Inimigos do Batente, além de fazer uma roda por semana com os amigos Paulinho Timor, Paulinha Sanches, Edu Batata e Kaká Sorriso no Clube Etílico Musical, o famoso bar da Meirinha, na Vila Madalena. Marcelão já acompanhou nomes como Wilson Moreira, Germano Mathias e Tantinho da Mangueira, além de outras feras do Rio e de São Paulo. Seu timbre de voz é inconfundível e sempre surpreende os apreciadores de samba mais exigentes com seu repertório de sambas “lado B”. É um monstro do samba.

O compositor destes dois sambas chama-se Paulo Leal Ferreira Vargas Netto, mas é conhecido nas rodas de samba como Paulinho Timor. Apesar da pouca idade (25 anos), tem experiência de sobra no mundo do samba. Afinal, não é qualquer um que já tocou tamborim com Monarco, versou com Wilson Moreira e comeu os quitutes da Tia Surica... Paulinho é compositor dos bons. Seus amigos mais próximos sabem cantar de cor e salteado dezenas de (bons) sambas que nunca foram gravadas, mas ficam para sempre na memória do sambista. E ficam na memória apenas porque emocionam e tocam no fundo da alma da gente. Batuqueiro nato e cavaquinista por diversão, ele também já acompanhou muitos bambas pela estrada da vida afora. Uma de suas maiores emoções foi acompanhar o mestre Roberto Silva, de quase 90 anos, numa roda memorável no bar Ó do Borogodó. Esse promete.

Por fim, falaremos do cantor, cavaquinista e compositor Eduardo Luiz Ferreira, o Edu Batata. Diretamente de Pirituba, zona oeste de São Paulo, esse mestre do cavaco comove com seus floreados e acordes divinais todos que tem o samba como ideal e paixão maior na vida. Tocando com os Inimigos do Batente, com o Samba Rahro, na roda de samba semanal da Meirinha ou com os amigos, Edu toca seu cavaco com um sorriso estampado no rosto. Sorriso esse que parece se misturar com os acordes que ressoam de seu cavaquinho e contagia a todos. Ao longo de sua carreira, já acompanhou grandes personalidades do samba como Monarco, Jair do Cavaquinho e Xangô da Mangueira. Seu coração é cheio de amor como suas composições são ricas em melodia.

Meu pinho (Edu Batata / Airton Weckerlin)

Quando abraço meu pinho e vejo um novo caminho
Pra essa dor de mudar
Pois é dentro do peito que ela quer se instalar
Mas quando te acaricio, as notas que soam vêm pra amenizar Trazendo junto a mim uma imensa alegria
Inocente, tão singular (2x)

Belos acordes e sons que até a passarada faz invejar
Miraculoso remédio que tira o tédio quando o ouvido apura
Luz que ilumina meu ser me devolve esperanças
Rica és tua melodia, claves soltas pelo ar
Agonias que somente você, ó meu pinho, pode entoar
Vou lhe render homenagens, vou lhe aclamar
Pra Rafael, Luizinho e Dino gostar

Remador de todas as marés Maurinho de Jesus / Edu Batata)

Meu samba é remador de todas as marés
Ao ver o amor que desaguou num imenso mar
Se agitou feito as ondas que a tempestade provocou
Me dá inspiração que transformo em papéis
Pois é remador de todas as marés

Meu samba não tem fronteiras
Supera barreiras, cruza continentes
Não teme as cordilheiras
Os pólos gelados, desertos mais quentes
Meu samba não se entrega
Ele forte, navega
Não vai naufragar
Num mar de tranqüilidade, espiritualidade
Ele vai ancorar

Meu samba tem seus critérios
Possui seus mistérios
Pois é divinal
Vem com as gotas de orvalho
Os pingos da chuva
Com o temporal
Vai mergulhar no oceano
Diluindo assim minha desilusão
E emergir apaixonado
Assumindo o leme dessa embarcação

Semente de Donga (Edu Batata)

Sou o brilho forte que clareia
E une um amor ao ideal
Só quem é do samba o traz na veia
Luta para o bem vencer o mal
Sou o filho dos morros e favelas
Do jongo e dos bambas imortais

Sou, sou samba raro, sim senhor
Semente que Donga plantou
Raiz que envelhece, mas não morrerá jamais
Sou o tronco que frutificou
Sou vaso ruim de se quebrar
Deixa essa cadência te levar

Senhora da Doçura (Edu Batata)

Comprei flores e rosas para lhe ofertar
E bate cabeça no congá
Com ervas me banhei, na gira não girei
mas missangas comprei pra te adorar

Velas brancas e rosas pra glorificar
vou pedir maleme a Oxalá
Nas matas me embrenhei
Mas Oxossi escutei
Salve a Mãe da Doçura e do Amor

Mãe dos Amores, ouro de lá, de além mar
Vaidosa nas cores, belo orixá (2x)

E a canção que fiz foi pra Oxum
Salve Nossa Senhora Conceição
Que nunca faltem flores para Oxum
Para não faltar amor no coração

Vou me procurar (Edu Batata)

Vou me procurar entre velhas cinzas do passado
Quem sabe, nelas remoendo, me encontre de novo
Estou perdido na poeira, desorientado
Pisando descalço em pregos, espinhos, estorvos
Tingido os olhos de vermelho, um dia eu vi
Meu rosto refletindo no espelho da dor
No peito cheio de remorso
Entre mil destroços, quase sucumbi
Sem rumo, sem riso, sem chão, sem amor

Sentindo um vento gelado batendo em meu rosto
Cortando minha face, uma lágrima cai
Tristes lembranças aumentam ainda mais meu desgosto
Rancores, tantos dissabores, amarguras não saem

Eu vivo perdido no tempo sentindo uma dor atroz
Carrego só ressentimentos
No silêncio da noite, meu grito é feroz
Minha alma reclama cansada
Meu corpo agoniza em dor
Eu sou a lâmpada apagada, pintura que perdeu a cor

Preciso me achar, vou me procurar, eu vou (2x)
Entre velhas cinzas do passado

Ficha técnica dos sambas do Edu Batata:

Voz: Edu Batata
Violão: Wesley Ferreira
Violão de 7 cordas: Wesley Ferreira
Bandolim: Getúlio Ribeiro
Percussão: Hildo Rodrigues
Participações: Samba Rahro, Rodrigo Pirituba, Kiko Dinucci, Paulinha Sanches, Paula Klein, Railídia Carvalho, Dulce Monteiro e Mara

Não bula na cumbuca (Paulinho Timor)

Toca marimba, não bula na cumbuca
Segura a moringa, não deixa cair
Se o meu bolso pegou fogo
Se eu não dei sorte no jogo
Se o canário tava rouco
O que é que eu vou fazer?
Vou ficar no meu canto
Sem nenhum espanto
Na bola de meia pra não me atrasar
Se a coisa tiver feia eu vou pra casa
Eu não sou brasa para me esquentar

E o axé vem
Vem lá da Bahia
Vem trazendo muita alegria
Nessa pegada, viro duas madrugadas
Na levada da viola que meu samba tem

Voz: Paulinha Sanches
Caixa de fósforo: Paulinho Timor
Rebolo: Marcelo Homero
Pandeiro: Kaká Sorriso
Cavaco: Edu Batata
Violão de 7 cordas: Luiz Tchubi
Clarinete: Alexandre Ribeiro

Aquela Maria (Paulinho Timor)

Vocês conhecem aquela Maria
Ai se um dia ela me quisesse bem
Faria tudo o que ela pedisse
Mesmo achando tolice
Mesmo que não me convém
Pois quando ela passa eu acho graça
Ai se ela achasse graça em mim também
Maria dos meus sonhos encantados
Fique ao meu lado que viverás muito bem

Iríamos para França, para Itália e Portugal
Para Cancún, Noronha, todo nosso litoral
Camarão, lagosta, eu mesmo cozinhava
A sobremesa ela escolhia, eu mesmo que preparava
E se ela gostasse de um belo souvenir
Eu daria mesmo tudo
Eu daria mesmo sem ela pedir
E se ela gostasse de um belo souvenir
Eu daria mesmo sem ela pedir

Voz: Marcelo Homero
Rebolo: Paulinho Timor
Pandeiro: Kaká Sorriso
Cavaco: Edu Batata
Violão de 7 cordas: Luiz Tchubi
Clarinete: Alexandre Ribeiro

3 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Grande André! Seu blog cada vez melhor, trabalho fundamental de memória você nos tem proporcionado! Vamos ver se agitamos aquela cerveja para que eu possa te entregar o CD do Cupinzeiro, aqui de Campinas, que tá uma beleza. Viva o samba paulista! PS: - Maravilha a voz dessa cantora! Do tipo que não se ouve mais por aí. Grande achado!

Marília disse...

Muito bom!

Parabéns André, por dar espaço para nossos amigos tão talentosos.
É muito bom ver como sou privilegiada por ter sido premiada nesta vida com amigos tão brilhantes.
Parabéns Batata e Scheidão, suas músicas são lindas.
Marcelão e Paulinha, mandaram bem.
Valeu Samba Rahro, Pirituba, Kiko, Railídia e Dulce, apavoraram.

Muita luz a todos!

bigode disse...

Belos sambas e vozes, né não?

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