10 de junho de 2008

As belas melodias de Anabela


Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a compor um samba-enredo para uma escola de samba, o Império Serrano. Antes disso, já fazia, escondida, seus sambas de terreiro. Compunha e jogava na mão de seu primo Fuleiro, o mestre, que apresentava, sempre com grande sucesso, nas rodas de samba. Bem antes dela, Dolores Duran também fazia história ao compor suas próprias canções que interpretava.

A história de compositoras talentosas de samba no Brasil ainda é curta. A grande maioria das boas intérpretes de samba são exclusivamente cantoras e não arriscam tirar a sorte com as melodias e poesias. Recentemente tivemos a grata surpresa da Teresa Cristina, que também é compositora. Mas o melhor ainda estava por vir. E veio.

Há alguns meses atrás, tive o prazer de ouvir uma composição de Roberto Didio e Renato Martins, chamada “O mar e o amor” interpretada pela excelente cantora Anabela, do Núcleo de Samba Cupinzeiro, de Campinas. Uma beleza! Pouco tempo depois, fiquei sabendo que o CD do Cupinzeiro (do qual ainda irei me aprofundar mais em outra ocasião) estava no forno e que Anabela, além de cantar, teria algumas composições no disco.

No começo desta semana, finalmente, escutei com toda a calma do mundo o maravilhoso trabalho do Cupinzeiro. E qual não foi meu espanto ao ver que a belíssima cantora também é compositora de mão cheia. E excelente instrumentista!!!

Inerte, sentado no sofá com o encarte do álbum na mão, consegui me transportar para uma roda de samba lá em Barão Geraldo, que ainda não tive o prazer de conhecer. Refleti e senti que o espírito da roda de samba, que é o que nutre de vida e emoção o samba, está presente nas composições de Anabela.

Em “O samba chama”, ela interpreta sua composição, além de bater o surdo com muita categoria. Vale a pena escutar.

O samba chama (Anabela)

Nego, eu fui ao samba
Fui para ser a sua companheira
Porém cheguei mais tarde
Me deste uma rasteira

A dama era linda
Que graça, que beleza
Você fazia mestre sala
Exaltando as formas
Dando bandeira
Triste é saber
Que dançaste com outro alguém
Não vou lhe perdoar
Companheira de orgia
Não mais serei

Minha bandeira
Eu não vou guardar
Descobri que não sou sua
Pode acreditar
Sou do samba que sempre chama
Ele não me abandonará



Um comentário:

Bruno Ribeiro disse...

Maravilha, André! Texto de grande sensibilidade. Mas você esqueceu de dizer uma coisa. Além de ser uma cantora de timbre ímpar; de compor como gente grande; e de ser ótima instrumentista (ela toca surdo!), Anabela, consegue ser mais bonita do que todas as outras cantoras de samba.

Em nome de toda a comunidade do Cupinzeiro, agradeço seus comentários!

Abração!

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O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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