16 de outubro de 2007

Samba, produto brasileiro (e carioca)

Há algum tempo atrás, escrevi um artigo sobre a origem do samba para o site Culturando. Ele é carioca, do bairro do Estácio de Sá. Pouco tempo depois de publicado este artigo, o samba (carioca, é claro) foi proclamado patrimônio cultural brasileiro. Segue, então, na íntegra, o artigo.

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Vinícius de Moraes foi um grande poeta. Mas, em vida, falou duas asneiras que, de tanto serem repetidas, ficaram gravadas no inconsciente coletivo dos brasileiros. “São Paulo é o túmulo do samba” é uma afirmação que nem deve ser levada a sério, já que se trata de uma afirmação bairrista e preconceituosa. A outra inverdade que Vinícius propagou é que o samba é baiano. Mentira.

O samba (este que nós escutamos hoje, mais sincopado) não é baiano. Ele é carioca da gema. Como o Corcovado, o Pão de Açúcar e o Flamengo. Surgiu no bairro do Estácio de Sá e não tem nada a ver com os “sambas” amaxixados do começo do século. Aquele tipo de samba, consagrado por Sinhô, então “rei do samba”, era um tipo de música para ser bailado, tocado com orquestras e com o predomínio da melodia.

Já o samba estaciano era um samba para se desfilar (foi o pessoal do Estácio que fundou a primeira escola de samba, a Deixa Falar, em 1929), com o ritmo quente da batucada predominando. Rubem Barcelos, Bide, Marçal, Ismael Silva, Brancura, Baiaco e Nilton Bastos eram os principais compositores do Estácio. Uma peculiaridade deste formato de samba é que não existiam as introduções melódicas e tampouco haviam as segundas partes. Cantava-se apenas a primeira parte e depois se improvisava. Nos desfiles das escolas de samba, eram estes sambas de terreiro (como eram chamados estes sambas de uma parte feitos nos terreiros das escolas de samba) que se cantavam.

Logo este samba ganhou o morro e o asfalto. Aos poucos, os blocos carnavalescos passaram a adotar este novo ritmo. Os cantores do rádio também perceberam que algo havia mudado e passaram a procurar esta nova geração de compositores para gravar. Entretanto, como os sambas com apenas a primeira parte eram muito curtos para serem gravados, eles pediram para os compositores adicionarem as “segundas” (segundas partes). Noel Rosa foi mestre nisso.

Francisco Alves e Mario Reis, os maiores cartazes da época deixaram de lado o maxixe para se dedicarem ao samba, já em seu novo formato. Sinhô, maior representante da antiga geração do samba, caiu no ostracismo e nunca mais fez o mesmo sucesso.
Este novo samba se consolidou e até os anos 50, foi uma febre nacional. Os compositores do Estácio ganharam a companhia de geniais compositores “do asfalto”. Wilson Batista, Haroldo Lobo, Assis Valente, Sinval Silva, e, claro, Noel Rosa eram presença constante nas radiolas brasileiras.

Paralelamente, no morro, o novo ritmo também se firmou. Era o mesmo samba sincopado, mas, afastado das influências das gravadoras e das rádios, era muito mais puro. Ainda permaneciam apenas com a primeira parte e eram de uma dolência que hoje quase não se vê mais (o conjunto Terreiro Grande, de São Paulo, é uma das raras exceções). Os grandes nomes das escolas de samba eram Carlos Cachaça (Mangueira), Paulo da Portela (Portela), Antenor Gargalhada (Salgueiro), entre outras cobras criadas.

O tempo passou, o samba-enredo se modificou até chegar ao lixo que conhecemos hoje. O samba de terreiro, aquele feito sem compromisso, na manha, sem compromisso, também mudou: ganhando uma segunda parte. Durante os anos 50 e começo dos 60, foi abafado pela Bossa Nova e pelo rock and roll que veio de fora. Era a primeira vez, desde que o samba se consolidou, que ele deixava de ser o número um nas rádios e nas gravadoras. Foi uma época difícil para os sambistas, tanto os do asfalto quanto os do morro.

Nos anos 60, os compositores das Escolas de Samba se mobilizaram e começaram a formar diversos conjuntos. O Zicartola, restaurante-casa de show de Dona Zica e Cartola era o ponto de encontro dos sambistas. O Conjunto Voz do Morro, os Cinco Crioulos, os Cinco Só, os Partideiros, os Mensageiros do Samba… Todos esses conjuntos eram formados exclusivamente por compositores de escolas de samba.

Foi um alento. Mas o samba só voltaria a encontrar sucesso, de fato, com o Paulinho da Viola e o Martinho da Vila (e depois, Clara Nunes, Beth Carvalho etc.). Isso até aparecer a turma do Cacique de Ramos com sua nova roupagem (mais acelerada).
Quem descobriu este novo filão foi Beth Carvalho. E durante toda a década de 80, o “pagode” (termo cunhado para definir este novo tipo de samba) dominou. O samba, pobre samba, ficou relegado a segundo plano. Ninguém queria produzir discos do Wilson Moreira, da Velha Guarda da Portela, do Guilherme de Brito (o japonês Katsunori Tanaka foi uma grata exceção)… Preferiam Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, etc…

Vieram os anos 90 e um “pagode” ainda mais xumbrega apareceu. Eram conjuntos inspirados nas boy bands americanas. Horrível. Foi mais uma década em que o samba autêntico (aquele que seguia a linha do Estácio de Sá) ficou escondido.
Hoje, no raiar do novo milênio, o samba, que durante todo este tempo de “reinado do pagode” ficou restrito às rodas de samba das esquinas, dos botequins e dos terreiros, finalmente voltou às gravadoras (ainda que de forma singela).

Na realidade, o samba sempre esteve vivo e forte. Suas raízes são fortes e estão fincadas na cultura brasileira. Passam os ritmos da moda e o samba permanece. Por isso que é errado pensar que esta revalorização do samba é apenas mais uma “modinha”, como a lambada e o forró universitário. O samba é maior do que tudo isso. Ele agoniza, mas não morre. Nunca.

12 comentários:

NADO disse...

DIZER QUE O SAMBA É CARIOCA E QUERER SIMPLIFICAR DEMAIS NÃO É NÃO?????????

ABRAÇO!!!!!

André Carvalho disse...

Não

Assim como o samba de roda nasceu na Bahia e o samba rural (samba lenço) nasceu no interior de São Paulo, o samba nasceu no bairro do Estácio de Sá, no Rio.

Abs

Antonio disse...

O poeta Vinicios só repetiu o que diziam Donga, Ismael Silva (o baluarte do Estácio), entre muitos outros que testemunharam o início de tudo. O próprio Paulinho disse que o samba carioca nasceu das reuniões e festas realizadas nas casas das tias baianas na cidade nova. Agora, é lógico que foi mudando com o tempo.

André Carvalho disse...

Isso faltou eu falar. O samba começou a se desenvolver nas casas das tias baianas no Rio. Sua formatação definitiva, entretanto, se deu no Estácio de Sá.

Um abraço

Antonio disse...

É isso mesmo André, o carioca já têm o choro nascido lá, que na minha opinião é o estilo musical mais rico do Brasil para não dizer do mundo. Só quem toca um instrumento de corda ou sopro sabe a dificuldade de se executar um choro de Pixinguinha, Nazaré ou Jacob com perfeição.
Salve a Bahia !!!! Salve Tia Presciliana de Santo Amaro (mãe de João da Baiana), Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana), Tia Amélia do Aragão (Mãe de Donga), Tia Gracinda, tia Dadá, Tia Mônica e a grande Tia Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata, pois sem elas o nosso samba, com certeza, não seria o mesmo.
Abraço!!!!

NADO disse...
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André Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André Carvalho disse...

Galera, os comentários servem para vocês exprimirem suas opiniões. Podem discordar a vontde. Agora, se usarem este espaço para causar, tumultuar, xingar... vai ser excluído mesmo. Isto aqui não é a casa da mãe joana. Respeito!!

NADO disse...

E A DEMOCRACIA?????

VC QUER IMPOR SUA VERDADE PARCEIRO??

ENTÃO TA CERTO!!

SALVE O "SAMBA CARIOCA"

ABRAÇO!!!

André Carvalho disse...

Pode expor seus argumentos, suas opiniões, à vontade. Mas sem xingar, sem abaixar o nível, por favor. Com educação todo mundo pode discutir a vontade. Democraticamente.

chico brito disse...

Democracia não existe. Educação quem quer tem.

Paulo Renato disse...

O Samba quanto estética e estilo musical foi criado nos morros do Rio de Janeiro. Estilos trazidos da Bahia como o lundu, serviram como embrião para se chegar na denominação de samba.
Pelo jeito daqui a pouco dirão que o Choro e a Bossa Nova não nasceu no Rio, a gravação de "Pelo Telefone" e a 1ª Escola de Samba (Estácio de Sá), também não são crias da cidade carioca.

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