8 de outubro de 2007

Eu gosto de samba cadenciado! parte IV

Purista, conservador, retrógrado, tradicionalista, xiita, talebamba, guerrilheiro do samba... É assim que o pessoal do pagode me chama nas discussões da Tribuna Samba-Choro. Isso porque eu sou um defensor ferrenho do samba (não gosto da denominação “de raiz”).

Minha luta pela valorização do samba tradicional se dá porque eu acho necessário abrir os olhos dos sambistas para a sua história. O samba é muito antigo e tem um monte de sambista bom que caiu (ou está em vias de cair) no esquecimento. Paulo da Portela cantou “O meu nome já caiu no esquecimento/ o meu nome não interessa mais a ninguém”. Seu nome ainda está presente, mas o mesmo não acontece com Brancura, Djalma Mafra, Baiaco, Zé Cachacinha e outros bambas.

Por que eu não falo da turma do Cacique? A mídia já os colocou em evidência, a massa já os abraçou e canta seus sambas (ou pagodes). Eles não precisam de mim.

Meu purismo, de fato, existe. Gosto de sambas que me emocionam, que me tocam. E não tenho culpa alguma se o formato e a estrutura rítmica dos sambas “caciqueanos” não me agradam. Já falei e vou repetir: isso não impede de eu gostar de alguns sambas desta turma tocados sem este “apavoro”, sem a “quebradeira rítmica”, que tanto os caracteriza. Tem samba deste pessoal que é bom, isto é inegável. Minha implicância com eles é que estes bons sambas se transformam numa barulheira com tantos pandeiros de nylon, tantans, banjos e repiques de mão.

O samba é democrático e existem muitas pessoas que não compartilham a mesma opinião que eu. Ainda bem. Só quero deixar claro que minha luta é para evitar que tantos talentos caiam no ostracismo. Ultimamente, eu e o meu parceiro de samba Iuri Bigode temos descoberto lindos sambas da antiga através do Instituto Moreira Salles (do qual falarei com mais calma num futuro próximo). Nessa busca, descobrimos nomes como Djalma Mafra, Paulo Soledade, Príncipe Pretinho, Milton de Oliveira, entre muitos outros. Sambistas de mão cheia!!

Como é bom cantar “Chorou Madureira, chorou Irajá, Salgueiro, Mangueira, Favela, Portela, Estácio de Sá....” na roda de samba. Um samba dos anos 40 de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira consagrado na voz de Aracy de Almeida, que faz a poeira levantar. Saudosismo? Sim. Purismo? Sim.

Não me abalo com as críticas e vou continuar nesta minha missão. Estou entrincheirado nesta batalha e sei que vou levar muito chumbo. Mas não desistirei nunca desta luta. O samba faz muito por mim eu preciso fazer um pouco por ele.


Ilustração: "Roda de samba" - Di Cavalcanti

6 comentários:

Roberto disse...

Discordo de você quanto ao grupo do Cacique de Ramos, e acompanhei a discussão (uma das mais longas) no samba-choro, mas posso garantir que também sou assim e sempre fui muito criticado e chamado de conservador. O problema não somos nós, e sim se não existirmos, pois tudo passará a ser bom e não haverá padrão. Gosto cada um tem o seu, mas a discussão saudável é fundamental para a consolidação do diálogo. A propósito, você assistiu ao documentário recente sobre o Cartola? Antecipo que não gostei... Axé.

Martinho disse...

Tamo junto Piruquinha, assino em baixo tudo o que foi escrito !
E hoje explode o pacote ein ?!?!
Abraços !

Catandas disse...

Tive o privilégio de comparacer no sambinha ali na puc que vocês fazem, e venho dar os parabêns a todos, principalmente por certas brasas que sempre um de vc´s tiram do fundo do baú.

Parabens sucesso pro blog e sucesso em dobro pra rodinha de samba da puc. ( onde a humildade e a elegancia prevalece)

Antonio disse...

Concordo em muitos pontos com vc, pois sou um amante do samba. Mas discordo da sua postura com o pessoal do Cacique, pois vc está sempre desmerecendo a rapaziada de lá sem necessidade. Acho desnecessária a repetição de comentários negativos, fica parecendo picuinha. Lembremos que o samba sempre apresentou diversidades de estrutura, como o samba-maxixe, samba-enredo, samba-sincopado, samba-canção, samba-breque, partido alto, samba-exaltação, samba-jazz, samba-rock, bossa-nova, etc. E dentro desses estilos sempre houve sambas bons e ruins. Lembrem-se das guerras entre sambistas, só para citar algumas, p. ex., Os Oito Batutas X Sinhô, Wilson Batista X Noel Rosa, entre outras. Talvez eu goste de compositores de períodos e estilos de sambas específicos, mas não vejo necessidade de desprestigiar os outros, pois sempre me surpreendo com coisas boas (p. ex., ouvi recentemente o samba-jazz dos anos 60 do grupo "Os Cobras" do grande trombonista Raulzinho e fiquei maravilhado com a qualidade musical, o mesmo digo do "Emir Deodato e o Catedráticos" ), pois acho que ver qualidades em outros estilos não vai me afastar dos que realmente gosto. Olhar pelo retrovisor é sempre mais fácil, pois podemos filtrar entre milhares de compositores da década de trinta uns 10 ou 20. O contemporâneo é sempre mais difícil. Acho que muita coisa do pessoal do cacique vai ficar para o futuro e muita coisa vai para o lixo, como sempre acontece.

Trindade disse...

Salve Salve!!!
concordo contigo malandro!!
tambem sou um lutador assiduo pelo nosso samba (tb não gosto do termo raiz)tenho um grupo o qual já tocamos pra garçons e seguranças várias vezes, sem ng na casa...
agora só discordo quando falam da utilização do banjo e repique de mão na roda de samba!!!
na minha modesta opinião estes instrumentos assim como todos, bem tocados com disciplina podem entrar em qualquer roda de samba. Penso que trata de puro preconceito esta taxação contra estes instrumentos!!assim como qualquer outro!!!
Axé e salve o Samba!!!sempre!!

Bigode disse...

10, 20 sambistas da decada de 30?

Pára.

10, 20 sambistas em cada escola de samba, por aí meu compadre Antônio!

O Cacique não é feito só de sambas ruins, é fato, mas, 90% péssimos não é exagero.

E é nessa trincheira que eu entro com meu compadre!

Esse papo politicamente correto eu também uso, não quero desrespeitar ninguém.

Mas, na realidade, não me emociono com a grande maioria do que ouço da turma do Cacique e derivados.

E isso falo para todos, inclusive para amigos que gostam.

Sinto muito mas, simplesmente, acho que tem muita (mas muita mesmo) coisa bem melhor e bem menos divulgada a se apreciar.

E é por isso que o ataque constante do André ao Cacique é válido. Alguém tem que fazer esse papel.

Por que a mídia marom já está querendo fazer-nos engolir o pagode anos 80 como música brasileira de raíz! Pára de novo!

Estão querendo, inclusive, desestruturar a atual crescente valorização da música brasileira antiga (samba, moda de viola, forró, etc...).

Para a indústria fonográfica tal movimento é um perigo... então, porque não se aproveitar do momento e misturar as coisas?

Eles não dão ponto sem nó, mas, pra cima de mim não!

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O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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