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24 de janeiro de 2013

Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

"A tristeza me persegue
Ora, vejam que martírios meus 
Muito embora na orgia 
Eu não tenho alegria"

Os versos de Heitor dos Prazeres contagiavam os sambistas de Oswaldo Cruz. Era um legítimo samba de terreiro, curto, contagiante, feito de apenas uma parte. A segunda, os versadores, hábeis na arte da improvisação, e dotados de voz possante, é que davam o recado. Havia um que era especialmente bom: João da Gente. 

Heitor dos Prazeres era sambista que tinha trânsito no asfalto e no morro - no caso da Portela, roça, mesmo, já que na primeira metade do século passado, a urbanização ainda não havia chegado às regiões afastadas de Oswaldo Cruz. Foi levado para a agremiação azul e branca pelas mãos de Paulo da Portela e, bamba que era, emplacou grandes sambas naquele terreiro. Como também era personagem de destaque do cenário do samba "da cidade", gravava muito, levando, eventualmente, alguns sucessos de sua Escola para a cera dos 78 rotações por minuto. 

O samba "Tristeza (A tristeza me persegue)" foi gravado em 1930, por Januário de Oliveira, em uma época em que os registros ainda tinham grande influência do maxixe - logo suplantado pelo ritmo desenvolvido no Estácio de Sá, que persiste até os dias de hoje. 

Este ritmo quente já se faz presente, com tamborins afiados, na gravação de Roberto Paiva, de 1944. Esta versão, no entanto, traz como parceiro de Heitor dos Prazeres, ao invés de João da Gente - que criou os versos registrados na gravação original -, o compositor Herivelto Martins. 

Heitor modificou a primeira parte e Herivelto criou uma nova segunda. O samba ficou assim:

A tristeza me persegue
Aumentando os sofrimentos meus
Vai-se a noite e vem o dia
E eu não tenho alegria (eu, não)

Deve haver um responsável
Pela minha solidão
Sempre existe algum culpado
E a tristeza é de um coração

Quando Paulinho da Viola reuniu a Velha Guarda da Portela e concebeu o disco "Portela Passado de Glória", João da Gente regravou o samba, com a primeira parte original e outros versos de improviso. Depois a música seria gravada, ainda, duas vezes: por Zeca Pagodinho, em 1998, e por Nilton Paes, em 2003.

Escute, abaixo, as três primeiras gravações da música.

Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente) canta Januário de Oliveira - 1930
A tristeza (Heitor dos Prazeres - Herivelto Martins) canta Roberto Paiva - 1944
Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente) canta João da Gente - 1970

 

23 de março de 2011

A Velha Guarda da Portela

Reproduzo abaixo, um texto de Francisco Bosco sobre a Velha Guarda da Portela. E mais abaixo, segue o link de uma grande entrevista realizada pelo mesmo Francisco Bosco com o Diretor Cultural da Portela, Carlos Monte.


SEGUNDO CADERNO O GLOBO Quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
FRANCISCO BOSCO

Velha Guarda da Portela

No belo e comovente documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda sobre a Velha Guarda da Portela, há uma cena reveladora. Nela, Argemiro conta que, certa vez, levado por Paulinho da Viola até Vinicius de Moraes e Chico Buarque, esses o provocam: “Quer dizer que você é sambista? Então faz um samba sobre essa garrafa.” Argemiro, sem pestanejar, responde: “Eu não, não estou sentindo nada por ela.” Por meio dessa anedota pode-se começar a compreender por que o filme se chama tão apropriadamente, “O mistério do samba”. É que o mistério dos sambas da Velha Guarda da Portela, sua singularidade, está em que eles são, lá onde mais se diferem, sambas do
mistério. Vejamos.

Pode-se afirmar que a tradição principal do samba é aquela que Muniz Sodré chamou de transitiva, isto é, concreta, ao rés-da-realidade, diretamente vinculada às situações da vida cotidiana. À parte a controvérsia musical (maxixe ou samba), esse traço está inscrito desde a origem mítica do samba: “Pelo telefone”, em sua versão consagrada, começa, justamente, com versos que parecem emergir da realidade em tempo real: “O chefe da polícia/Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca/ Há uma roleta/ Para se jogar”.

Essa vertente, referencial, é a que prevalece desde os primórdios até a consolidação do samba como gênero, já nos anos 30, com toda a geração do Estácio, mais Noel Rosa, Wilson Baptista, Geraldo Pereira, Herivelto Martins etc. A esse traço fundamental da transitividade juntar-se-ia logo outro, igualmente decisivo: a ética da malandragem. Esse, deve-se aos bambas do Estácio, que formam o período romântico da história do samba: boêmios, de vida dissoluta, morrendo jovens, de doença, loucura ou crime. Com efeito, enquanto os primeiros sambistas, da Cidade Nova (Pixinguinha, Donga, João da Baiana), foram em geral longevos, e levavam vida, digamos, mais civilizada, os sambistas do Estácio eram quase todos malandros, em sentido rigoroso: ganhavam a vida no jogo, na cafetinagem, não eram letrados, nem musical nem verbalmente. Quase todos tinham mulheres no Mangue, e a maioria morreu cedo: Nilton Bastos, Baiaco, Rubens Barcelos, Edgar, Brancura. Ismael Silva
escapou, mas não sem ter passado alguns anos na cadeia.

Tudo esse universo é estranho aos sambas da Portela. Não é que ele não esteja presente, de modo algum, no repertório dos compositores de Oswaldo Cruz. De fato, já nos sambas de seu fundador, Paulo da Portela, e em outros de sambistas da primeira geração, como Alvarenga, encontramos letradas dedicadas à dura realidade do trabalho (“Cocorocó”) e do dinheiro (“Dinheiro não há”). Esses temas, caros à tradição transitiva da malandragem, atravessam a história da Portela. Basta evocar um de seus maiores clássicos, “Vivo isolado do mundo”, do mítico Alcides Malandro Histórico, um partido-alto sobre o tema do malandro regenerado. Mas não é neles que se revela o mistério dos sambas da Portela.  Muitos desses sambas cantam a natureza. “Linda borboleta” e “Cidade Mulher”, de Paulo da Portela; “Madrugada”, de Aniceto; “Lua cor de prata”, de Manacéa, entre outros.

Aqui começamos a nos aproximar do x do problema. Carlos Monte e João Baptista Vargens, em seu livro “A Velha Guarda da Portela”, oferecem uma hipótese explicativa para esse traço. Oswaldo Cruz, em seus primórdios e durante boa parte de seu desenvolvimento, era uma comunidade de atmosfera rural: “Morava-se na roça, mantinham-se os hábitos da vida simples do interior.” Era um mundo em que “passarinhos trinavam nos galhos. Galos cantavam nos terreiros”. Daí a ligação dos sambas com a natureza. Essa hipótese me parece
totalmente plausível. Peço licença, entretanto, para ir adiante. Se ouvirmos atentamente sambas como “O mundo é assim”, de Alvaiade, ou “Nascer e florescer”, de Manacéa, compreenderemos que o que se canta ali não é propriamente a natureza, o sentido de uma visão estática que se representa, mas a natureza enquanto origem, o que não cessa de emergir, o ser: “O dia se renova todo dia/ Eu envelheço cada dia e cada mês / O mundo passa por mim/ Todos os dias/ Enquanto eu passo pelo mundo uma só vez”. O que se revela aqui, por menos recomendável que seja esse tipo de comparação, parece se inscrever no que os antigos gregos entendiam como physis, a origem, e que é, na definição de Alberto Pucheu, “não apenas o momento volátil, que logo se apaga, em que algo se inicia, mas, sobretudo, aquilo que permanece enquanto motor do que nasce em todo o seu processo duradouro”. A natureza, assim, não é objetificada, mas percebida em seu devir permanente.

O poeta se coloca na posição do espanto. Esse gesto, filosófico, de interrogar a vida, buscando penetrar-lhe os mistérios, é verificável em muitos sambas. Em “Solidão”, de Argemiro, por exemplo, ou “Madrugada”, de Zé Keti (que não foi da Velha Guarda mas manteve laços com ela), em que o tema clássico da boêmia recebe um tratamento reflexivo. É essa mesma ligação com o mistério, com a origem, que percebemos nos sambas dedicados à inspiração, como o belíssimo “Inspiração”, de Candeia, ou “Minha inspiração”, de Argemiro, que remonta ao episódio envolvendo Chico e Vinicius.

Não há espaço aqui para tratar dos inúmeros sambas antológicos sobre o amor. Só pude dizer o essencial (cheio de lacunas). Quero dedicar esse texto a Carlos Monte. E dizer ainda que Monarco é um dos seres que mais amo nesse mundo (espero voltar a falar dele neste espaço).

22 de maio de 2009

A tal casinha lá da Marambaia

Antigamente fazia-se muito sucesso as duplas de cantores, homem e mulher, que dividiam os microfones nas rádios e nas gravações de discos de samba. Uma boa dupla do passado era aquela formada por Henricão e Carmen Costa. Ora gravando composições do próprio Henricão, ora gravando composições de outros cartazes da época, esse par da pesada era muito solicitado dentro do casting das gravadoras.

Quando Carmen Costa gravou o grande clássico “Está chegando a hora”, adaptação de Henricão e seu parceiro Rubens Campos para a musica do mexicano Fernandez, o sucesso foi estrondoso e a dupla se desfez (posteriormente, no LP “Recomeço”, lançado em 1980, Henricão reeditou a dupla com Carmen Costa). Ela, entretanto, continuou a gravar outros sambas do compositor paulista.

“Só vendo que beleza”, uma das primeiras composições de Henricão foi gravado por Carmen Costa em 1942 e teve grande aceitação popular. O que poucos sabem é que o sambista compôs uma resposta para este samba: “Casinha da Marambaia”. Novamente, foi Carmen Costa quem gravou (1944). Se no primeiro ele exaltava toda a beleza de sua casa, tão aconchegante e cheio de amor, na resposta ele põe tudo por água abaixo.

Eis os sambas:

Só vendo que beleza (Henricão - Rubens Campos)

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia, só vendo que beleza
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda florescida de brinco de princesa
Quando chega o verão eu sento na varanda
Pego o violão e começo a tocar
O meu moreno que está sempre bem disposto
Senta-se ao meu lado também a cantar

Quando chega a tarde um bando de andorinhas
Passa em revoada fazendo verão
E lá na mata um sabiá gorjeia
Uma linda melodia pra alegrar meu coração
Às seis horas da tarde o sino da capela
Bate as badaladas da Ave Maria
E a lua nasce por de trás da serra
Anunciando que acabou o dia

Casinha da Marambaia (Henricão - Rubens Campos)

Nossa casinha lá da Marambaia
A mais bonita da praia se desmoronou
A trepadeira brinco-de-princesa
Ficou triste, amarela e depois secou
Minha varanda vive no abandono
É um destroço sem dono
Numa solidão
Até você que parecia ser sincero
Sem motivo abandonou meu coração

O sabiá também mudou seu ninho
Eu já não ouço a sua canção
As andorinhas foram em revoada
Quebraram-se as cordas do meu violão
E há quem diga que isso é desumano
E eu não mereço tanta ingratidão
Quero que volte como antigamente
Para dar sossego ao meu coração


Baixe os discos de Henricão aqui e aqui

14 de julho de 2008

Ingrata Solidão (Geraldo Babão)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

Conheci este samba na apresentação que o Terreiro Grande fez em São Paulo no Teatro FECAP ano passado. Pouco depois, achei o
vídeo deles tocando a música no Youtube e comecei a cantar o explosivo samba nas rodas. Para minha surpresa maior, fuçando nuns discos velhos meus, achei a pérola num disco do Zuzuca, dos anos 70. Brasa!!!!

O samba Ingrata Solidão, do genial compositor salgueirense Geraldo Babão, é daqueles que levantam uma roda de samba. O coro ("soooooooooooolidão") canta junto com força esse samba, um tanto desconhecido da maioria, mas clássico, genial, sublime...

Ontem, descolei um belo disco do Salgueiro, da Ala dos Compositores (valeu, Frank!) e tomei um susto quando vi que tinha uma versão ótima do Zuzuca, mandando muito bem, cheio de malemolência no cantar. Compartilho com vocês o samba e ainda deixo
um link para vocês ouvirem o Terreiro Grande tocando a música em Paquetá.

Ingrata Solidão (Geraldo Babão)

Solidão (solidão)
Por que tanto me persegue
E não me deixa de mão
Solidão
Te considero em minha em vida
A pior tentação
Solidão (solidão)
Eu ainda espero um dia
A felicidade invadir meu coração

Eu vou lhe mandar embora
Ô ingrata solidão

Depois que conseguir tudo o que quero
Quem há muito eu espero
Não sentirei mais paixão
Vou sufocá-la num beijo
Que é todo o meu desejo
Te esquecerei solidão

16 de novembro de 2007

A vez dos cariocas

Chegou a hora dos cariocas conhecerem a excelente roda de samba do Terreiro Grande. Eles, juntamente com a Cristina Buarque, irão lançar o CD Terreiro Grande e Cristina Buarque ao vivo no próximo final de semana, em duas apresentações (leia rodas de samba).


Sábado, 24 de novembro, 15 h
Tia Leleta Bar (Bar do Zazur)
Entrada franca
Rua Dr. Lacerda, 18 (em frente a Telemar)
Ilha de Paquetá


Domingo, 25 de novembro, 17 h
Trapiche Gamboa
Couvert R$ 16 reais
Rua Sacadura Cabral, 155, Pça. Mauá
Rio de Janeiro

Segue um vídeo da apresentação deles no Teatro FECAP, em São Paulo. Trata-se da música Ingrata Solidão de Geraldo Babão.

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