12 de abril de 2010

Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia (2010)


A espera foi longa, mas valeu a pena. Em fevereiro de 2009, Terreiro Grande e Cristina Buarque realizaram um grande espetáculo em homenagem a Candeia, no Teatro FECAP. Na ocasião, foi relançada a biografia do sambista, assinada por João Batista M. Vargens, que conviveu vários anos com o portelense e pôde escrever com propriedade sobre o assunto. O show apresentado na época, belíissimo, foi gravado para virar, posteriormente, um CD. E neste último fim de semana, finalmente o disco foi lançado, e no melhor espaço possível, a casa dos sambistas, o Bar do Alemão, local de encontro deles e quase uma “sede” do Terreiro Grande.

Grandes amantes do samba e alunos estudiosos que buscam aprender cada vez mais com os ensinamentos deixados pelos grandes mestres, os sambistas do Terreiro Grande mais uma vez fizeram história. Sempre contando com o luxuoso auxílio de Cristina Buarque, preparam um repertório irretocável, mesclando grandes clássicos da obra de Antônio Candeia Filho, com algumas inéditas que não poderiam ficar na obscuridade de maneira alguma. São sambas de terreiro, sambas enredo e partidos que demonstram bem o que foi o compositor portelense: um dos maiores compositores de toda a música popular brasileira e um grande defensor da arte negra e das manifestações culturais populares e espontâneas.

Neste sábado, 10 de abril de 2010, Candeia, onde quer que ele esteja, sorriu. Um trabalho tão caprichado, feito por pessoas que tanto valorizam e dignificam o samba, é algo a ser exaltado. Na fria tarde de outono, até o sol resolveu dar a sua graça e brindar os presentes com seu calor e fulgor. A roda estava completa e podemos todos festejar um momento tão especial para o samba.

O disco é mais do que um lançamento musical, é um documento histórico, um tributo mais do que merecido à aquele que tanto lutou pelo samba e deixou plantada a semente, que estes rapazes cultivaram e cultivam há tantos anos. Agora, já colhem frutos saborosos.

São dez faixas, cada uma contendo mais de um samba, naquele esquema de put-purri que tão bem demonstra o espírito de roda de samba que eles levam para a “cera”. Mais uma vez, o forte coro é o que dá a tônica dos arranjos, inspirados nos sambas de terreiro da antiga. Cristina Buarque, presença mais do que ilustra, gosta de samba assim e se sente bem cantando dessa maneira. Todos estão tocando e cantando muito bem no disco.

Na faixa 5, com uma arranjo de regional mais enxuto, podemos notar a maestria de Edinho, no cavaco e os maravilhosos bordões de Cardoso e Lelo. O pandeiro de Luizinho é algo único nos dias de hoje (e o que dizer de sua potente voz?).

Nas outras faixas, o “peso”, característica principal do samba do Terreiro Grande, é o que dá a tônica. E em todo o disco, podemos notar a excelência dos sambistas: Tuco canta cada vez melhor, assim como Alfredão, Renato, Marcelo Cabeça, Bocão, Jorge, Eri, Lelo, Cardoso e Miséria, que também atuam como solistas no primoroso álbum. Roberto Didio é quem faz a marcação, coração do samba. Neco, Pereira, Careca, Buião completam o escrete, tão entrosado que até lembra o Brasil da Copa de 70.

Para matar a curiosidade dos leitores, segue a faixa 7:



Miragens do deserto (Candeia) - solista: Tuco
Ilusão perdida (Candeia e Casquinha) - solista: Luizinho
Já sou feliz (Candeia)
Não é bem assim (Candeia) - solista: Marcelo Cabeça

Marcelo Cabeça garrafa Renato Martins agogô Luizinho pandeiro Roberto Didio surdo Tuco cavaquinho Lelo violão 6 Edinho cavaquinho Cardoso violão 7 Neco reco-reco Miséria prato e faca Eri caixinha de fósforo Alfredo Castro tamborim e cuíca Pereira tamborim Jorge Luiz Garcia tamborim Careca tamborim
Todos + Cristina, Buião e Bocão coro


Também vale a pena descrever aqui o texto de João Batista M. Vargens, contido no encarte do disco:

Existem artistas cujos tentáculos de Chronos são incapazes de contê-los. Perpassam anos, décadas, séculos e suas obras continuam sensibilizando as novas gerações, desafiando o tempo. A cada releitura, descobre-se algo novo, em sintonia com o momento, e, desse modo, tem-se a certeza de que a perenidade, de fato, é a grande marca da modernidade.

Entre os seletos compositores da Música Popular Brasileira, está, sem dúvida, Antônio Candeia Filho. Versátil, Candeia explora, com maestria, as três grandes vertentes da música das escolas de samba do Rio de Janeiro: o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo, além de enveredar, com reconhecida competência, por outras searas de matizes afro-brasileiros, como o jongo, o caxambu, o maculelê, o afoxé, o samba-de-roda e por aí afora.

Em boa hora, a inesgotável Cristina Buarque e o Terreiro Grande subiram ao palco do FECAP, em São Paulo, e, por três noites de fevereiro de 2009, tranformaram a ribalta da Liberdade na varanda da rua Marependi, rua circular (como muitos rituais africanos) de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde residiu Candeia nos últimos anos de sua curta trajetória. Na ocasião, tive o prazer de lançar a 3ª edição de “Candeia, luz da inspiração” editora Almádena, aumentada e contendo um CD com mais de duas dezenas de músicas inéditas. Foram apresentações memoráveis! De tal forma que se percebiam resfôlegos de prazer em cada rosto, à saída do teatro. Para fixar aquele momento instante mágico, Zeca Ferreira, filho da cantora, brinda-nos com este CD, em que as músicas até então inéditas somam-se ao repertório gravado e nos apresentam, com fidelidade, com espontaneidade, um Candeia verdadeiro. Os atores (cantores e músicos) manejam rimas e ritmos com despojamento e alegria. Há de se ressaltar, também, a cadência, a “levada” dos sambas, bem ao gosto do homenageado.

Parabéns, Cristina! Parabéns, Terreiro Grande! De tão grandes, vocês embarcaram nas asas da Águia e transpuseram o subúrbio de Oswaldo Cruz, aconchegante ninho da Portela, para qualquer lugar do planeta.

João Batista M. Vargens

Ficha técnica show

Direção artística
Homero Ferreira
Direção de produção
Américo Marques da Costa
Produção executiva
Thyago Braulio
David Alexandre
Som
Alberti Ranelucci
Vanderley Quintino
Carlos Rocha
Rafael Valim
Luz
Silvestre Jr.
Carol Autran

Ficha técnica CD

Produção
Zeca Buarque Ferreira
Transcrição
Alberto Ranellucci
Mixagem e masterização
Mario Gil/ Home Studio
Projeto gráfico
Paulo Emílio
Fotos
Marina Fraga
Foto capa
Walter Firmo
Tratamento de imagem
Maya Zalt

Parabéns, Terreiro Grande e Cristina! Vocês são brasa!!!! A existência de você engrandece o samba.


Avaliação: ***** (espetacular)

7 comentários:

Anônimo disse...

Que beleza!!!!!!

Ricardo Brigante disse...

Brasa, brasa, brasa...

Gostei do texto André.

Abraços, Brigante.

Branco disse...

Coisa linda...To doido pra comprar esse cd logo..Assisti o show aqui no rio,de arrepiar...

Thiago disse...

Pô André,
Primeiro parabéns pelo blog!
Grande Candeia!
Abração!
Thiago

Lucia Helena disse...

Estou ouvindo o meu disco aqui, enquanto espero a volta do TG ao balneário!!!

Madrugaº disse...

Ta escrevendo muito bem meu camarada...Abraços.

Dra. Cabrocha disse...

Eu também assisti ao show aqui no Rio!!! Muito emocionante. Gostaria de saber quando haverá o show de lançamento no Rio... E onde comprar o cd!!!

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O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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