18 de fevereiro de 2013

Vatapá (Dorival Caymmi)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

Samba amaxixado, samba estaciano. Samba de breque, samba sincopado. Samba de terreiro, samba de quadra, samba-enredo. Samba-canção. Samba rural, samba de roda, samba de bumbo. Samba-receita. Samba-receita?

Foi Dorival Caymmi quem inventou essa nova modalidade de samba. Um samba-receita ensina a preparar um prato e ainda ajuda a mexer, para não embolar a iguaria. É, também, a melhor forma de aprender a cozinhar, já que a receita não sai da cabeça, com o buliçoso andamento que só o compositor baiano sabia encaixar nos sambas. 

Vatapá foi gravado, originalmente, pelos Anjos do Inferno, em 1942. Caymmi registraria sua versão em 1957, no LP Eu vou pra Maracangalha. Outros artistas, como Manezinho Araújo, Noite Ilustrada, Gal Costa e João Bosco também gravariam o samba-receita. 

Aprenda com Caymmi como preparar este prato delicioso, umas das riquezas gastronômicas da Bahia.


Ingredientes:

- Fubá
- Dendê
- Nega baiana que saiba mexer
- Castanha de caju
- Pimenta malagueta
Amendoim
- Camarão
- Coco ralado
- Sal
- Gengibre
- Cebola

Custo total:

- Dez mil réis

Modo de preparo:

Quem quiser vatapá, ô
Que procure fazer
Primeiro o fubá
Depois o dendê
Procure uma nega baiana, ô
Que saiba mexer
Que saiba mexer
Que saiba mexer

Bota castanha de caju
Um bocadinho mais
Pimenta malagueta
Um bocadinho mais
Amendoim, camarão, rala um coco
Na hora de machucar
Sal com gengibre e cebola, Iaiá
Na hora de temperar

Não para de mexer, ô
Que é pra não embolar
Panela no fogo
Não deixa queimar
Com qualquer dez mil réis e uma nega ô
Se faz um vatapá
Se faz um vatapá
Que bom vatapá

Vatapá (Dorival Caymmi) - Anjos do Inferno (1942)
Vatapá (Dorival Caymmi) - Dorival Caymmi (1957)

4 de fevereiro de 2013

Pega o Lenço e Vai 2013


"São Pedro colaborou!", pensaram todos, quando sobre a manhã do dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, se abateu um luminoso Sol. Era dia de desfile do Bloco de Samba Pega o Lenço e Vai. A celebração era justa: durante toda a semana, bem como nos ensaios e no desfile do ano anterior, choveu. Parecia uma resposta da natureza ao samba "Pobre bem-te-vi" (... o céu chorou pois não pode suportar / o lamento angustiante que um pobre pássaro fez soar...), de Tuco e Lo Ré, que contagiou os integrantes da agremiação no primeiro ano de desfile, em 2011.

A comemoração, no entanto, foi precipitada. À medida que as horas avançavam, as nuvens negras se aproximavam. O céu queria chorar, pois não poderia suportar o cantar feliz que aquele bloco se faria soar. Quando, finalmente, os sambistas se postaram à rua, no primeiro rufar de tamborim, caiu a primeira gota. O céu já estava completamente escuro.

Mesmo assim, o "esquenta" começou. O samba era Saudade dela, composição feita há mais de 40 anos por João do Violão, compositor de mão cheia, autor - ao lado de Luiz Antônio - de um dos maiores clássicos da música brasileira, Eu bebo sim. Tendo feito a composição, originalmente um maxixe, há tanto tempo, é natural que a emoção de vê-la ser entoada por um Bloco de Samba uníssono tenha sido tão grande. 

Enquanto se esquentava o Bloco, repetindo, por vezes e mais vezes, Saudade dela, o céu, finalmente chorou. E chorou pra valer. Abriu o berreiro. Não podemos chamar de tempestade tal precipitação. Era dilúvio mesmo. A solução foi migrar para dentro do Centro Cultural Dona Leonor, sede do Bloco e do Projeto Samba de Terreiro de Mauá, e esperar o aguaceiro passar. 

Como o dilúvio demorou a passar - a calçada virou rio e muita água entrou para dentro do antigo Bar do Buiú - o jeito foi continuar esquentando o coro, o couro e as cordas, cantando os sambas dos anos anteriores. 

Quando, finalmente, a chuva cessou, os foliões (que neste caso fazem mais que folia, pois o Bloco visa fortalecer a memória social brasileira - são, portanto, também, militantes) novamente se organizaram para descer a Rua San Juan. Após novamente ser entoado o antigo maxixe ("Era saudade dela, perdi um amor e ganhei uma saudade / outro amor seria a solução pra minha dor..."), o contingente começou a descer a ladeira.

Na sequência veio o samba enredo, composto pela trinca Edinho, Léo e Danilão, que também fizeram as homenagens a João Candido e Luiza Mahin, figuras de destaque da negritude brasileira, nos anos anteriores. É importante ressaltar que um dos principais intuitos do Pega o Lenço e Vai é fortalecer a Lei 10.693/2003, que garante o ensino da história do negro nas escolas. Como a lei custa a pegar, o Bloco faz sua parte, evocando o valor daqueles que a historiografia "oficial" prefere minimizar.

Eis o samba:


Luiz Gama, o trovador da liberdade (Danilão / Leonardo / Edinho)

Nascia na Bahia de São Salvador
O grande Getulino trovador
No comércio da ilegalidade foi vendido como escravo
Aos dez anos de idade, não desistiu e lutou
Lutou, lutou
Contra a monarquia do escravizador
E pelo escravo Jacinto foi inspirado a fazer seu maior feito
E então foi coroado como rábula nos tribunais
Quinhentos negros ou mais por ele foram libertados

Eis aqui, o nosso Orfeu de carapinha
Luiz Gama, o grande Getulino libertador

O samba estava na rua, as melodias eram emanadas pelo asfalto, contagiando curiosos, que saiam à janela, se penduravam nas varandas e deixavam o comércio por um instante para beber desta rica vertente da música brasileira, marginalizada, há décadas, pela indústria cultural. Seguiram-se os sambas: Velhos professores (Saci e Edinho), Lágrimas (Fernando Paiva e Tuco), Lua cruel (Lo Ré) e Por que choras? (Careca, Edinho e Marcelo Baseado)

Uma tradição firmada pelo Bloco no primeiro Carnaval manda que, todo ano, um samba curto seja cantado, para os versadores mandarem o recado. Como nos outros carnavais, o samba foi de Careca:

Sai da minha frente (Careca) 


Pode chegar com a sua bateria
Eu sou valente
Meu pessoal é de antigamente
Vai atropelar
Sai da minha frente!

Foi com os improvisos dos partideiros presentes que findou-se mais um desfile do Bloco de Samba Pega o Lenço e Vai!, encerrando mais um ciclo, iniciado em outubro de 2012, quando foi definido que o tema do Carnaval deste ano seria Luiz Gama. 

Agora, é preciso manter a chama acesa, o estandarte levantado. Para isso, é necessário que o Bloco fique em atividade durante todo o ano. Será neste 2013 que se iniciarão os encontros do chamado "meio de ano"? Uma Ala de Compositores de talento já existe, vontade de cantar os sambas novos e seguir compondo também não faltam. Debates a respeito desta proposta já foram realizados.

Confira abaixo a proposta do Bloco, o enredo deste ano e as letras dos sambas:



30 de janeiro de 2013

Plínio Marcos e Os Pagodeiros da Pauliceia

Hoje, na coluna "Batucando", do site Nota de Rodapé, uma homenagem a Plínio Marcos, sambista da pesada da Pauliceia. Confira!

Ilustração de Kelvin Koubik.

29 de janeiro de 2013

Um artigo de Mano Décio da Viola

Dados dos carnavais antigos na "Praça Onze de Junho", por Mano Décio da Viola (publicado no encarte do disco "História das Escolas de Samba, volume 8", em 1976)


24 de janeiro de 2013

Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

"A tristeza me persegue
Ora, vejam que martírios meus 
Muito embora na orgia 
Eu não tenho alegria"

Os versos de Heitor dos Prazeres contagiavam os sambistas de Oswaldo Cruz. Era um legítimo samba de terreiro, curto, contagiante, feito de apenas uma parte. A segunda, os versadores, hábeis na arte da improvisação, e dotados de voz possante, é que davam o recado. Havia um que era especialmente bom: João da Gente. 

Heitor dos Prazeres era sambista que tinha trânsito no asfalto e no morro - no caso da Portela, roça, mesmo, já que na primeira metade do século passado, a urbanização ainda não havia chegado às regiões afastadas de Oswaldo Cruz. Foi levado para a agremiação azul e branca pelas mãos de Paulo da Portela e, bamba que era, emplacou grandes sambas naquele terreiro. Como também era personagem de destaque do cenário do samba "da cidade", gravava muito, levando, eventualmente, alguns sucessos de sua Escola para a cera dos 78 rotações por minuto. 

O samba "Tristeza (A tristeza me persegue)" foi gravado em 1930, por Januário de Oliveira, em uma época em que os registros ainda tinham grande influência do maxixe - logo suplantado pelo ritmo desenvolvido no Estácio de Sá, que persiste até os dias de hoje. 

Este ritmo quente já se faz presente, com tamborins afiados, na gravação de Roberto Paiva, de 1944. Esta versão, no entanto, traz como parceiro de Heitor dos Prazeres, ao invés de João da Gente - que criou os versos registrados na gravação original -, o compositor Herivelto Martins. 

Heitor modificou a primeira parte e Herivelto criou uma nova segunda. O samba ficou assim:

A tristeza me persegue
Aumentando os sofrimentos meus
Vai-se a noite e vem o dia
E eu não tenho alegria (eu, não)

Deve haver um responsável
Pela minha solidão
Sempre existe algum culpado
E a tristeza é de um coração

Quando Paulinho da Viola reuniu a Velha Guarda da Portela e concebeu o disco "Portela Passado de Glória", João da Gente regravou o samba, com a primeira parte original e outros versos de improviso. Depois a música seria gravada, ainda, duas vezes: por Zeca Pagodinho, em 1998, e por Nilton Paes, em 2003.

Escute, abaixo, as três primeiras gravações da música.

Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente) canta Januário de Oliveira - 1930
A tristeza (Heitor dos Prazeres - Herivelto Martins) canta Roberto Paiva - 1944
Tristeza (A tristeza me persegue) (Heitor dos Prazeres - João da Gente) canta João da Gente - 1970

 

10 de janeiro de 2013

Os sons dos negros no Brasil (José Ramos Tinhorão)


Quando Joaquim Callado compôs “Flor Amorosa”, por volta de 1870, e o classificou como choro, nasceu a música popular brasileira. Muito se estudou sobre os anos que se seguiram, muito se escreveu sobre os gêneros populares que surgiram a partir daí, mas pouco se pesquisou sobre o que antecedeu o nascimento da nossa música popular. Os documentos e estudos anteriores a esta data são escassos e a raiz negra da música brasileira era vista com extremo preconceito por parte da elite branca “civilizada” – cabe destacar que, quando Joaquim Callado criou a melodia brejeira do seminal choro, vivíamos, ainda, sob a égide da escravidão.

Disposto a destrinchar as raízes negras de nossa música, no entanto, o pesquisador e musicólogo José Ramos Tinhorão foi atrás da parca documentação existente entre os séculos XVI e XIX sobre as influências africanas na gênese de nossos ritmos populares e analisou o surgimento e desenvolvimento dos autos, folguedos e cantos de trabalho dos negros no Brasil.

Valendo-se de relatos de viajantes, cartas de missionários, manuscritos, poemas satíricos e até mesmo refazendo traduções mal-feitas e descobrindo novos significados em documentos que passaram batidos pela historiografia tradicional, o autor cumpriu, com louvor, tal propósito. Fruto desse minucioso trabalho de pesquisa, o livro “Os sons dos negros no Brasil – Cantos, danças, folguedos e origens” é obra indispensável para quem deseja conhecer melhor as origens de nossa cultura popular.

O livro é divido em quatro partes. Na primeira delas, o autor traça, com detalhada riqueza de informações, fruto de pesquisas em documentos do século XVI, o início da presença negra no Brasil – antes mesmo da determinação, por parte da Coroa Portuguesa, do uso ostensivo de escravos africanos em nossa terra, os fidalgos que por aqui desembarcavam já se valiam do uso de negros para trabalhos domésticos.

À época da conquista portuguesa das terras brasileiras, já era numeroso o contingente de cativos a serem explorados no país europeu, pioneiros na triste prática da escravidão, em larga escala, de habitantes do continente negro. As cartas destes lusitanos que por aqui chegavam, relatos da incipiente dominação promovida no Brasil, são as principais fontes de pesquisa do atento pesquisador.

A segunda parte, “Músicas,danças e cantos de negros”, trata do surgimento da música negra profana, dessacralizada, surgida daquilo que se chamava, genericamente, de batuques. As músicas religiosas trazidas pelos negros da Mãe África, aos poucos vão perdendo o caráter sagrado e, do caos sonoro que se caracterizava em sua origem, vão ganhando canto e dança, gerando novas estruturas rítmicas e melódicas, que logo caem no gosto das classes populares – às vezes, alcançando, até, os salões.

É interessante notar que o fado e a fofa, música e dança nacionais portuguesas, respectivamente, tiveram origem no Brasil, mas se estabeleceram e se desenvolveram no país europeu, desaparecendo por completo por aqui. O fado é brasileiro. Por aqui, no entanto, foi concebido como dança, e, ao ganhar canto e estruturas melódicas e rítmicas na Metrópole, tornou-se música popular. Já o lundu também atravessou o continente, mas não chegou a cativar os lusos como cativou os brasileiros – por aqui, também se transformou de dança para música, o lundu-canção.

O samba primitivo, assim como outros cantos e danças originadas do batuque africano, tinha como peculiaridade o uso da umbigada (semba, em quimbundo). Cultivado em áreas rurais, deu origem ao partido alto e à batucada, no Rio de Janeiro. Cultivado paralelamente ao tango brasileiro - o tanguinho - e ao maxixe, na então Capital Federal, ganhou sua roupagem definitiva com os negros do Estácio de Sá bem depois, já na década de 1930.

Cabe ressaltar que diversos ritmos e festejos espalhados pelo Brasil eram chamados de samba, já que o uso da umbigada era comum a estas manifestações culturais. Explica Tinhorão: “A paganização definitiva dos antigos batuques africanos, afinal transformados desde fins do século XVIII em simples diversão de escravos, crioulos, mulatos e gente das baixas camadas, não apenas permitiu o aproveitamento de um de seus momentos coreográficos, sob o nome de lundu, mas acabou conferindo ao próprio batuque o nome de samba, quando o elemento angolano da umbigada veio neles prevalecer”.

Segundo o autor, ao detalhar o legado da musicalidade negra à música popular brasileira do século XX, “os negros, mestiços e brancos das classes mais baixas continuaram herdeiros do batuque, cultivando até hoje a batucada, o bate-baú, o lundu, o coco, o caxambu, o jongo, o tambor de crioula, e todas as modalidades surgida no calor dos sambas. Inclusive o próprio samba e o velho partido alto, ainda tão populares e tão cheios de sabor que a própria indústria de massa não hesitaria em revivê-los comercialmente na década de 1980 sob o nome de pagode.” Cabe destacar que o livro foi publicado em 1988, época em que o chamado "samba de raiz" agonizava nos meios radiofônicos e fonográficos.

“Autos e folguedos negros” e “Os cantos de trabalho dos negros da cidade e dos campos” completam a análise sobre as origens da musicalidade negra em nosso país pelo musicólogo marxista. Ao analisar as congadas, José Ramos Tinhorão volta à África e analisa como o Reino do Congo legou um folguedo a Portugal e, depois, ao Brasil. De acordo com o musicólogo, do primitivo auto de coroação dos reis de Congo surgiram vários outros folguedos, como os maracatus do Recife, os afoxés da Bahia, as taieiras de Sergipe, os cambindas da Paraíba e os moçambiques do Centro-Sul.

Finalmente, o livro aborda os cantos de trabalho, praticados ainda no continente negro e trazidos para o Novo Mundo pelos negros escravizados. Alguns deles chegaram aos dias atuais graças ao brilhante disco “O Canto dos Escravos”, de Geraldo Filme, Clementina de Jesus e Tia Doca. O trabalho foi lançado no início dos anos 80, mas o autor não chega a citá-lo no livro - Tinhorão apresenta, no entanto, alguns cantos recolhidos por Aires da Mata em "O Negro e o garimpo em Minas Gerais", que foram registrados no disco lançado pela Eldorado em 1982. 

“Os sons dos negros no Brasil – Cantos, danças, folguedos e origens” é mais uma brilhante contribuição de José Ramos Tinhorão para a memória sociocultural do Brasil. Ao vasculhar documentos e destrinchar os caminhos sonoros percorridos pelos negros no Brasil Antigo, o autor dá subsídios para futuras pesquisas musicais, que, certamente, abarcarão, com mais riqueza, este período da “pré-história” da música popular brasileira.

Os sons dos negros no Brasil – Cantos, danças, folguedos e origens
José Ramos Tinhorão
Editora: 34
Ano: 2008 (1ª edição: 1988)
Preço: 39 reais

4 de janeiro de 2013

O samba carioca de Wilson Baptista

Dando início às homenagens ao centenário de Wilson Batista, celebrado neste ano de 2013, reproduzo aqui uma resenha sobre o disco "O Samba Carioca de Wilson Baptista", publicada em julho de 2011 na revista Carta Capital. Segue o texto na íntegra, sem cortes.

Garimpo, em tempo

Wilson Batista, autor de clássicos do carnaval (do samba e da MPB) como “Emília”, “Bonde São Januário” e “Oh, Seu Oscar”, teve o primeiro samba gravado, “Por favor vai embora”, há 79 anos. Desde então, dezenas de intérpretes de várias gerações registraram suas canções. Mas faltava um trabalho de “garimpo” em sua obra à altura de sua importância para a música brasileira.

O Samba Carioca de Wilson Baptista, esmerado projeto de pesquisa de Rodrigo Alzaguir, homenageia o sambista com um álbum-tributo (duplo), trazendo composições inéditas (nove), registros caseiros raros (dois) e um musical (na íntegra). São crônicas, que retratam o Rio Antigo, o samba, a malandragem, o trabalho e as mulheres. Um resumo da biografia do artista.

O álbum é dividido em duas partes. O Disco Um é a “Reserva Especial”, que traz uma seleção de músicas raras, inéditas ou jamais regravadas. Participam das gravações: Cristina Buarque, Elza Soares, Wilson das Neves, Samba de Fato, Nina Becker, Rosa Passos, Marcos Sacramento, Tantinho da Mangueira, Teresa Cristina, Céu, Mart'nália, Zélia Duncan, Cláudia Ventura, Rodrigo Alzuguir e Roberto Silva (que conviveu com Wilson Batista e agora, nonagenário, regrava alguns sambas). Destaques para “Não sei dar adeus” (gravada em 1939), parceria com Ataulfo Alves, interpretada por Marcos Sacramento e a marcha-rancho inédita “Nelson Cavaquinho”, por Teresa Cristina.

O segundo disco é o “Espetáculo”. Trata-se da trilha sonora do espetáculo “O samba carioca de Wilson Baptista”, encenado e cantado por Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura em uma aplaudida temporada nos teatros do Rio. O musical traz passagens da vida de Wilson Batista, seus principais personagens (como Etelvina, Emília, Seu Oscar e Chico Brito), a famosa polêmica com Noel e vários sucessos. 

O Samba Carioca de Wilson Baptista é um disco que foge do óbvio. Ao resgatar a obra, ilumina a biografia do sambista. Resgatando o passado, ilumina o presente, preparando terreno para as futuras gerações de sambistas.


Ano Herivelto Martins

Em 2012, o genial compositor Herivelto Martins completaria 100 anos. Atentos a relevância do fato, sambistas de Belo Horizonte e Ouro Preto realizaram uma belíssima homenagem a este baluarte da música popular brasileira.

Em outubro, escrevi um texto para o site Nota de Rodapé sobre a celebração, que dignificou o nome deste sambista, colocando o nome Brasil 41, definitivamente e com destaque, no mapa do samba brasileiro.



3 de agosto de 2012

Todo amor (Carlos Cachaça - Cartola)

GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA

Há 110 anos, nascia um dos maiores gênios da música popular brasileira, um ás dos versos e das melodias, Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça.

Parceiro de Cartola em clássicos como Tempos Idos, Quem me vê sorrindo e Alvorada, o poeta de Mangueira legou para a cultura brasileiras pérolas de inestimável valor. Todo amor foi registrado no único álbum do sambista, lançado em 1976, quando o compositor tinha 74 anos de idade. A parceria, também, é com o Divino.

Todo amor (Carlos Cachaça - Cartola)

Todo amor, no princípio tem sabor
Tem perfume, tem odor
Que embriaga o coração 
Mas depois é uma taça incolor
Que só contem amargor,
Dissabor e maldição 

Todo amor principia com beijos e risos
E no princípio forma um paraíso
E depois com o tempo um dos dois vem a se arrepender
Um amor para gozar e outro para sofrer

26 de julho de 2012

"O Berro do Cabrito" está de volta

O Berro do Cabrito volta a ecoar por aqui. Com roteiro e produção de Fabrício Alves, conhecido nas rodas de samba como "Fabrício Geraes", o programa traz muitas brasas e uma boa dose de humor. Confira!

19 de julho de 2012

Homenagem a Clementina de Jesus

Vinte e cinco anos sem a Rainha Quelé, hoje.



Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola - Hermínio Bello de Carvalho)

21 de março de 2012

O samba paulista, por seus personagens

Texto publicado originalmente no Catraca Livre em 17 de fevereiro deste ano.

O samba paulista tem valor, sim senhor. Se ao longo das últimas décadas, foi obscurecido pelo irmão carioca, fazendo de Adoniran Barbosa um representante isolado a ser lembrado pela massa brasileira, isto muito se deveu pela falta de memória e reconhecimento por parte dos próprios paulistas, que deixaram de lado sua riqueza e tradição musical para cultuar a produção de seus vizinhos.

Mas o fato é que o samba paulista, que apresenta um caráter mais rural, é rico em compositores e intérpretes. Onde estãos estes sambistas? Foi esta pergunta que instigou o pesquisador Carlos Antonio Gomes a sair a campo e descobrir estes talentos ocultos, verdadeiras pérolas de nossa cultura popular.

Ao se deparar com um edital para pesquisadores, disponibilizado pelo Centro Cultural São Paulo, investiu suas forças neste estudo. “À princípio, fiz uma pesquisa de campo sobre São Paulo antiga, os escravos, o fim da escravidão na cidade, para depois preparar terreno para falar sobre o movimento do samba”, afirma Gomes. Nascia o livro – com um DVD anexado – “Um Batuque Memorável no Samba Paulista”.

A serviço da história

“Nós não conseguimos olhar o passado com o devido carinho, estamos sempre olhando para o futuro e esquecemos de valorizar nossa memória”, desabafa Gomes, completando que seu papel nesta pesquisa histórica sobre o samba de São Paulo era estar “a serviço da história”.

As vivências de sambistas como Toniquinho Batuqueiro, Mestre Divino, e de bambas da Velha Guarda Camisa Verde, da Nenê da Vila Matilde e Vai-Vai fizeram com que a história fosse escrita para além do campo dos tamborins e pandeiros: era a história da própria Pauliceia que se escrevia.

E foi justamente por este motivo, a ânsia de registrar estas importantes personalidades de São Paulo, verdadeiros heróis de nosso povo, que Gomes disponibilizou os vídeos na Internet.

Com a chegada do Carnaval, o momento não poderia ser mais propício para conhecer a verdade por trás da festa grandiosa visual e francamente comercial que se tornou os desfiles de Escolas de Samba de São Paulo.










26 de janeiro de 2012

Prêmio Paulo da Portela 2011

Paulo da Portela foi uma figura humana de inestimável valor para a cultura popular brasileira. Ao lutar pelo reconhecimento do samba como manifestação cultural autêntica, pacífica, educativa e sociabilizadora, bateu de frente com autoridades racistas, higienistas e eugenistas. O samba, suburbano, mestiço, brasileiro exemplificava a cultura das três raças fundidas, bem como a sociedade brasileira: o ganzá é indígena, o pandeiro é árabe, as cordas são ibéricas e o couro é africano.

Quem viveu o samba naquela época, quem conheceu Paulo da Portela, confirma esse afirmação. Waldir 59, atual número 1 da Portela, disse para mim há poucas semanas, que, de fato, tratava-se de um ser humano batalhador, um lutador, um guerreiro em prol da aceitação do samba pela sociedade. E realmente, naqueles idos da década de 30, este ritmo galgou crescente respeito com a classe artística. Aos poucos, os principais cartazes do rádio e dos discos de 78 rpm passaram a gravar este ritmo moldado pelos batuqueiros do bairro do Estácio de Sá, preterindo os sambas amaxixados que Sinhô consagrou.

O reconhecimento da luta de Paulo veio em 1937, quando foi eleito, mediante escolha popular, Cidadão Samba. Um sambista precisaria saber versar, cantar, tocar e dançar o samba. Além de fazer tudo isso com maestria, Paulo era, também, um grande articulador político que conseguiu fazer com que o samba viesse a ser o ritmo nacional, despido de todos os preconceitos sociais que o envolvia até então.

Tantas décadas se passaram e o papel social do sambista se enfraqueceu. Excluído do novo cotidiano das Escolas de Samba, organizações cada vez mais comerciais sem vínculos culturais e artísticos com as comunidades que o abrigaram, precisou buscar novos horizontes para empunhar a bandeira da resistência - sim, pois o samba de terreiro, depois quadra, já não é uma realidade dentro destes históricos berços de bambas.

Nas esquinas e botequins, nas salas e quintais, criaram se os "projetos de valorização e resgate de samba de terreiro", ou "comunidades" - já existe até o termo "samba de comunidade". Existem em vários bairros de São Paulo e em algumas cidades como Uberlândia, Santos, Campinas, Porto Alegre e Florianópolis. São estes sambistas que ainda lutam. São os novos "cidadãos samba".

Em 2011, uma ação realizada pelo Movimento Cultural @migos do samba.com voltou a homenagear estes batalhadores. A ideia partiu de Vicente Ferreira, o "Presidente": a cada ano, um sambista que desenvolvesse atividades relevantes em prol do samba durante a temporada, seria louvado.

Ainda em 2010, dois projetos importantes foram concebidos e, ao longo do ano passado, foram realizados: o "Programa É Batucada!", série de entrevistas audiovisuais com sambistas da nova e da velha geração, e a série de rodas de samba em homenagem ao centenário do portelense Chico Santana.

A primeira ação, idealizada pela sambista e produtora cultural Isaura Almondes, fez com que nomes como Waldir 59, Tia Cida, Barão do Pandeiro, Seu Paulão, Seu Germano, Seu Mangueira, Tuco, Loré e outros nomes pudessem contar e cantar suas vidas no samba. Já a série de rodas, contou com importante organização do sambista Fernando Paiva, de Uberlândia. Sendo assim, receberam, com louvor, o "1º Prêmio Paulo da Portela".

De fato, Fernando Paiva simboliza um lutador, um batalhador pelo samba. Não há dúvidas que os ideais de Paulo da Portela habitam sua alma. Gentil, educado, honesto e apaixonado pelo samba. Um pesquisador de grande valor, que foi muito bem escolhido nesta primeira edição da premiação.

Lembro-me do dia em que o conheci. No bar, em frente ao Centro Cultural São Paulo, após a apresentação do Tuco e o Batalhão de Sambistas que deu origem ao disco "Peso é Peso". Uma figura humana extremamente bondosa, sincera. Estudioso de samba antigo esmerado. Meu amigo desde esse dia.

O "Programa É Batucada!", representado por Isaura Almondes, Edinho Carvalho, Marcelo "Baseado" Lourenço e este sambista que vos fala, também cumpriu um importante papel com as entrevistas, levando ao público sambas inéditos e desconhecidos de sambistas novos e consagrados. Orgulho-me de participar deste projeto.

A cerimônia foi engalanada pela presença de José Ramos Tinhorão, notório pesquisador de música popular brasileira - sem dúvidas, o maior de todos vivo -, que proferiu uma pequena  palestra sobre a importância do legado de Paulo da Portela para a música popular brasileira.

Cabe destacar também, a importância do sambista - e defensor das tradições do futebol de várzea - Arthur Tirone, o Favela. Ele é a pessoa que fez com que o Clube Anhangüera fosse, hoje, um dos principais símbolos de resistência do samba como forma autêntica de manifestação cultural. Tal luta fez com que fosse contemplado com uma placa, que exalta seu clube de várzea de coração. 

A temporada 2012 já começou. Ações já estão sendo pensadas. Salve o samba.

23 de novembro de 2011

Mais um sambista que se vai. Toniquinho Batuqueiro, sambista da Pauliceia

Toniquinho Batuqueiro era dos grandes. Um sambista que viveu, participou e respirou samba por toda a vida. Vivendo, sambando, acompanhou todas as transformações do ritmo na Pauliceia: do tambu ao surdo, passando pela zabumba. Do samba rural ao samba urbano, dos cordões às escolas de samba.

O samba deve muito a ele, que partiu neste dia 23 de novembro.

Descanse em paz, mestre.


28 de outubro de 2011

É hoje! Centenário Nelson Cavaquinho


Há quem suponha que Nelson Cavaquinho nasceu no dia 29 de outubro. No entanto, a data correta é dia 28, mesmo dia de nascimento de outro gênio, Garrincha. Quem confirma é o próprio, no depoimento dado a Fernando Faro no programa MPB Especial, nos anos 70.

Neste dia de centenário, vou reproduzir aqui a resenha sobre o disco "Nelson Cavaquinho 100 - Degraus da Vida", publicada originalmente na revista Carta Capital.

Eternamente no coração da gente

Nelson Antonio da Silva foi um boêmio de voz rouca, compositor de primeiro nível e instrumentista cuja batida de violão jamais seria imitada. Cantou em suas músicas a trajetória da vida vadia, as angústias, amores e, principalmente, o medo da morte. Vendia sambas e dava parcerias em troca de um copo de bebida ou de uma noite em uma hospedaria. Mesmo assim, felizmente, grande parte de sua obra sobreviveu, cativando gerações de ouvintes. Foi como Nelson Cavaquinho que esta espetacular figura humana atingiu a fama, ainda que não ligasse para ela.

No próximo dia 28 de outubro, o sambista mangueirense completaria 100 anos. Ele que sempre desejou receber as “flores em vida”, recebe, 25 anos após a sua morte, um álbum-tributo. “Nelson Cavaquinho 100 anos– Degraus da Vida” reúne clássicos e raridades, apresentando um amplo panorama de sua obra.

O CD duplo foi idealizado e produzido por Rodrigo Faour, que garimpou o acervo da EMI (herdeira dos catálogos de antigos selos como Odeon, RCA Victor e Copacabana) e dividiu o disco em duas partes: “Sambas Consagrados” e “Sambas Guardados”.

O disco 1 destaca clássicos do compositor, alguns deles em sua versão original (e fora de cátalogo) como “Degraus da Vida”, lançado por Roberto Silva em 1950 e “Palhaço”, gravado por Dalva de Oliveira no ano seguinte. Outro samba consagrado apresentado em uma versão menos famosa é “Quando me chamar saudade”, com Nora Ney (1972). Há espaço, também, claro, para Clara Nunes, com “Juízo Final” e Beth Carvalho (“Folhas Secas”), artista que mais gravou Nelson Cavaquinho.

Para colecionadores, o disco 2 é o ouro: algumas das gravações ali contidas aparecem em formato digital pela primeira vez. É o caso de “Cigarro” (1953), com Risadinha, e “Se me der adeus” (1969), com Jorge Veiga. Márcia (“Mesa farta”), Jurema (“Sinal de paz”) e Blecaute (“Caridade”) também merecem destaque.

“Nelson Cavaquinho 100 anos – Degraus da Vida” leva a Nelson as flores, o choro de um pandeiro e um tamborim, fazendo de ouro seu violão.

Arte: Alexandre de Maio
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