Do couro do cabrito, do boi, do bode, do gato é que o bom malandro faz samba. Jacarandá, massaranduba, embaúba, pinho e aço, mas sem embaraço, vai logo pra debaixo do braço de algum tocador. Com algum tira-gosto, cerveja e cachaça, a graça no rosto de todos se espalha... Com a palha na cabeça, mas por favor, não se esqueça: o samba é de todos!
8 de março de 2010
A mulher no samba
6 de março de 2010
Projeto Sambando Por Aí
2 de março de 2010
Biografia de Adoniran revisada e ampliada
ENSAIO - Walter Alfaiate
1 de março de 2010
Tuco e Batalhão de Sambistas em um final de semana histórico

Era grande a expectativa que cercava as duas apresentações de Tuco e seu Batalhão de Sambistas no Centro Cultural São Paulo, neste último fim de semana. Primeiro porque se tratava de uma reunião de ótimos e jovens sambistas com alguns nomes que fizeram e ainda fazem a história do samba: os convidados Nelson Sargento e Monarco, além das ilustríssimas presenças de Cristina Buarque e Francinete, que integraram o coro feminino. Segundo porque seria gravado, nestes dois dias de samba, o cd Peso é Peso. E toda esta expectativa - justificadamente alta, graças à alta qualidade musical do Tuco (que a cada dia canta melhor) e de seus acompanhantes - foi devidamente correspondida. Duas apresentações históricas, registradas para um posterior e também histórico álbum.
No sábado, dia de estréia, me acomodei na primeira fila da aconchegante Sala Adoniran Barbosa, e fiquei aguardando o início, pensando: “Qual será o repertório? Com certeza serei surpreendido com inéditas e raras...”. Sob aplausos, logo foram todos entrando no palco. Tuco à frente, puxando seu batalhão. Jorge Garcia e Alfredo Castro (grandes amigos!), ambos também integrantes do Terreiro Grande, comandaram a cozinha com uma dupla de tamborins que há muito não se via. Como há muito não se via também uma dupla de pandeiros como a de Rafael Toledo e Beto Amaral, este último integrante do Cupinzeiro. Na marcação do surdo, que é o coração de uma roda de samba, Donga, antigo companheiro de Tuco do Morro das Pedras, mostrou-se impecável. Os “arames”, a harmonia, que deu toda a sustentação melódica para esta batucada pesada, foi magistralmente composta por Lucas Arantes (cavaco), Junior Pita (violão) e João Camareiro (violão de 7). Os três demonstraram um entrosamento digno dos grandes regionais do passado. E ainda havia espaço pra mais gente: Loré, Fernando Paiva e Janderson formaram o coro masculino, enquanto as já citadas Francinete e Cristina Buarque integravam a “pastoragem”, ao lado de Keila Santos.
Foi com este escrete que Tuco cantou um samba (inédito) de Paulo da Portela, composto em 1937, após ter sido eleito Cidadão Samba. Na sequência, brasa em cima brasa. Em meio a muitos inéditos (a maioria) alguns sambas já gravados, mas pouco conhecidos: Na floresta (Cartola e Silvio Caldas), Ri por último quem ri melhor (Noel Rosa de Oliveira), Ironia (Ismael Silva - Nilton Bastos- Francisco Alves) entre outras. Destaque para a interpretação deste samba-choro de Ismael em que os músicos repetiram o arranjo original. Espetacular. (Confira a versão original destes três sambas abaixo, interpretados por Silvio Caldas, Albertinho Fortuna e Francisco Alves, respectivamente).
Para esta primeira apresentação, Nelson Sargento foi o convidado especial. Entre alguns sambas mais conhecidos de sua obra, como Falso amor sincero e Homenagem ao Mestre Cartola, e outros nem tanto (como a parceria com Marreta, Quando Xangô pegar o apito), o legendário sambista de Mangueira cantou um inédito samba-resposta ao clássico Fiz por você o que pude, de Cartola. Nelson Sargento assim falou sobre o samba: “Quando Cartola fez o samba Fiz por você o que pude, ele disse: ‘e no fim deste labor, surge outro compositor, com o mesmo sangue nas veias’. Eu e o meu parceiro Marreta resolvemos fazer uma resposta. E no samba falamos: ‘Talvez eu seja o valor que o amigo citou com o mesmo sangue nas veias’.” De fato, neste samba os dois compositores da Mangueira mostraram que eram aptos a seguir os passos do mestre. Hoje, o meste é Nelson Sargento e Tuco é o “jovem valor, com o mesmo sangue nas veias”. Mais alguns sambas foram apresentados e encerrou-se a primeira apresentação.
Após aquele tradicional momento de cumprimentos e felicitações aos músicos, encontrei com a Cristina Buarque, que falou sobre o Tuco, o resgate de sambas antigos e a nova geração de sambistas. “Tuco é um grande talento que resolveu seguir a carreira e eu torço muito por ele”, disse, enquanto terminava de fumar um cigarro no camarim. Chefia, como é carinhosamente chamada por seus amigos de Terreiro Grande, avalia como muito importante o trabalho de resgate de sambas de terreiro da antiga. “Tem um monte de samba que só o Monarco conhecia e que hoje foi cantado aqui, será registrado e muitos poderão conhecer. O Tuco gosta dessas velharias, né?”. Por fim, ela se mostrou muito satisfeita com a nova geração. “Hoje sou eu quem aprende muito com eles, também”, disparou.
No dia seguinte, retornei para acompanhar o desempenho do grande mestre Monarco. Ele que, num bate-papo informal que tivemos ano passado disse: “Tem um rapaz de São Paulo, o Tuco, que é muito bom...” Mestre e discípulo dividiriam o mesmo palco. E naquele final de tarde de domingo, todos os sambistas estavam mais à vontade, sem a natural pressão de uma estréia. O repertório foi quase o mesmo do dia anterior: muitos sambas em meio a um maxixe do Mano Edgar, do Estácio de Sá e uma inusitada uma marcha-rancho de Paulo da Portela.
Pouco antes de Monarco entrar em cena, Tuco disse, emocionado, que há catorze anos atrás assistira pela primeira vez uma apresentação do sambista da Portela e que estava tendo a honra de, naquele momento, dividir a cena com ele. Monarco, não deixou por menos e após duas cantar duas músicas afirmou, feliz, sentindo que estava diante de um ótimo cantor: “Esse menino tem futuro!”.
Quando os dois decidiram cantar Secretário da Escola, parceria do convidado da noite com Picolino, Monarco revelou: “Este samba tem uma história engraçada. Eu compus há muitos anos com o Picolino, mas foi o Tuco quem me ensinou”. Notava-se aí o grande empenho de Tuco para resgatar e “pescar”, como ele próprio definiu, os bons sambas do passado.
A apresentação caminhava para o fim. Mas havia tempo para algumas surpresas. Primeiro foi Cristina, que a pedido de Monarco, cantou Quantas Lágrimas, de Manacéa, seu maior sucesso. Depois foi a vez de Francinete, ex-integrante do conjunto As Gatas, cantar Tal dia é o batizado de Cabana, samba gravado por ela própria no disco Viva o samba, de 1967 e muito cantado nas rodas de samba da Paulicéia. (confira a gravação abaixo, com acompanhamento da Portela).
E quando findou o samba, foi hora de comemorar. Então foram todos para o bar da frente. Eu, o pessoal do Samba de Mauá, da Vila Prudente, os Amigos do Samba, Alfredão, Tuco, Junior Pita, que com seu violão tocou alguns sambas para as (ótimas) Adriana Moreira e Ilessi cantarem, Lucas Arantes, Donga, Loré, Barão do Pandeiro (com sua indefectível gravata borboleta) e muito mais gente que estava ali, na Sala Adoniran Barbosa, presenciando um momento histórico, e depois foi molhar as palavras no primeiro boteco.
A lembrança do grande espetáculo que se passou ainda está fresca na memória. Mas logo teremos o disco e daí então teremos a certeza de que o samba viveu, neste final de fevereiro de 2010, um grande momento. Tratado com respeito e louvor, como foi ensinado pelos mestres.
Avaliação: ***** (espetacular)
Fotos: Marcelo Martins
Confira o Myspace do Tuco & Batalhão de Sambistas
28 de fevereiro de 2010
E é mais um que foi sem dizer adeus
25 de fevereiro de 2010
Monarco no Clube Anhangüera!

24 de fevereiro de 2010
Peso é peso


Endereço: Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso - São Paulo - SP
Informações: (11) 3397 4002/ ccsp@prefeitura.sp.gov.br
22 de fevereiro de 2010
Projeto Resgate

Certo dia, recebi um recado aqui neste blog. Era de um pessoal de Porto Alegre, divulgando o trabalho que faziam com samba por lá. Peguei o contato de um deles e passei a trocar idéias, experiências e sambas. O nome do sambista era Fernandinho e sua agremiação, Projeto Resgate. Hoje alguns meses após esta descoberta, traço algumas linhas em louvor a essa rapaziada.
Pouco tempo depois de conhecer o blog do Resgate e escutar alguns áudios de suas rodas, comentei com alguns amigos do Samba de Mauá sobre o samba do Sul. Edinho e Marcelo Baseado, dois dos ótimos sambistas de lá, também mantinham contato com eles e, assim como eu, tinham grande curiosidade de conhecer “in loco” o projeto deles. O tempo foi passando até que, em janeiro último, fui a Porto Alegre. A primeira coisa que fiz chegando lá foi ligar para o Fernandinho. “Tô na área!”, disse eu. “Amanhã a gente toma aquela Brahma e arma o samba”, respondeu ele.
No dia seguinte, lá fui eu para o boteco (2,50 a Brahma, é sempre bom lembrar) encontrar a renca. Ficamos apenas bebericando e adiamos o samba para o dia seguinte. Entre uma garrafa e outra, pude conhecer algumas das personalidades que ainda não conhecia: Mario, Tiagão e companhia limitada. Tudo gente boa.
No dia seguinte, fomos para um outro bar armar a batucada. O Fernandinho me disse que a roda não estava completa, mas tava bonita viu? Na hora que vibrou o surdo pela primeira vez, fechei os olhos e senti o peso do samba, vindo com um côro impecável. Sorri e pensei com os meus botões: “Que beleza, o samba da gauchada é bom mesmo”. Quando findou o samba, usei a expressão que eles usam quando gostam de algo: “Aí que me refiro!!!”.
A cada música apresentada por eles ficava a certeza de que Porto Alegre está bem representada no cenário nacional do samba. Muita classe têm aquela gurizada. Gostei mesmo.
O Projeto Resgate é uma agremiação que ajuda a manter acesa a chama do samba. Sambistas de muito valor, despidos de vaidade, com muita humildade e um proceder impecável. Parabéns a vocês, meus amigos.
Segue abaixo, para quem ainda não conhece, um áudio de uma roda de samba armada por eles lá nos pampas:
19 de fevereiro de 2010
Carnaval, doce ilusão...
Quando o Carnaval termina, sempre fica impregnada em nós - e por alguns dias - a lembrança do reinado de Momo. Mas, do jeito que as coisas hoje vão, do que nos lembraremos amanhã? Da decadência galopante das Escolas de Samba, cada vez mais subjugadas a interesses alheios, ou da farra que voltou a ocorrer nas ruas das cidades, graças aos blocos?
Há décadas, vemos a tradição das nossas Escolas de Samba ir para o bueiro. Se antes o folião participava ativamente do desfile de sua escola de coração, hoje ele tem de tentar a sorte de conseguir um lugar na arquibancada e acompanhar de longe a “maior festa do planeta”, repleta de celebridades e turistas. Para o bom sambista da comunidade, alijado de sua própria casa, resta a torcida, de longe.
Sambar no chão, cantando e brincando é o que gosta de fazer um bom folião. E antes, com as Escolas de Samba era assim. Hoje, com os blocos, pode ser assim. Por isso é importante manter longe destas agremiações, que dão um alento e esperança ao nosso carnaval, as cordas e os abadás que separam quem pode e quem não pode participar da diversão. Bloco bom é sem divisão. Todo mundo sambando e desfilando junto.
Neste carnaval, eu vi bloco que canta marchinha antiga e vi bloco que canta marcha nova, autoral, com enredo e tudo mais. Gosto mais deste ultimo modelo. É importante que novas marchas surjam a cada carnaval pois assim há uma renovação que por muitos anos foi interrompida. O que senti falta foi de escutar mais sambas carnavalescos nas ruas. Seria legal ver mais blocos cantando samba.
Outro ponto que gostaria de repercutir por aqui: acho que o carnaval de rua possibilita aos compositores de blocos uma liberdade que não há mais nas Escolas de Samba. Portanto acho louvável quando escuto sambas, marchas ou marchas-rancho com suas roupagens tão próprias ao carnaval de rua. E não consigo entender direito porque alguns blocos desfilam com sambas-enredo deste molde atual, que é um tanto acelerado e desvirtuado.
Penso que o Carnaval de São Paulo vai trilhando um caminho interessante com os blocos. Gostaria de ver nos próximos anos o surgimento de mais blocos ligados ao samba. Será que não é uma opção interessante para as diversas agremiações (ou "projetos", ou "comunidades", como queiram) de samba da capital e região? No Rio, a festa popular começa a chamar a atenção da mídia e das autoridades. É preciso cuidado para que não aconteça o que aconteceu com os blocos de rua de Salvador e com as Escolas de Samba, que perderam a sua função original e mais nobre: a de proporcionar, para quem quer que seja, alguns dias de reinado. Sambando no chão.
16 de fevereiro de 2010
Avenida Fechada (Elton Medeiros - Cristóvão Bastos - Antônio Valente)
Chora meu peito
Assim desse jeito pra que cantar
Enquanto a avenida estiver fechada
Pra quem não puder pagar
Nem um canto sequer pra ver
A sua escola
Passando, sambando
Tanta beleza
Desfila presa no meu coração
Ver chegar o povo querendo brincar
E saber que agora não tem mais lugar
Pela cidade toda enfeitada
Parece até que o povo vai desenfeitar
Não me leve a mal
Mas muito luxo pode atrapalhar
Alegria ninguem pode fabricar
Um bom carnaval
Se faz com gente feliz a cantar
Pelas ruas um samba bem popular
5 de fevereiro de 2010
Já que não vende mais, vamos baixar!
4 de fevereiro de 2010
Sambistas, lutemos pela cultura livre!!

Semana passada, fui ao Rio Grande do Sul (Canoas) participar de uma conferência sobre Cultura Livre no Fórum Social Mundial. A ideia era compartilhar minhas experiências que faço com o samba e a internet aqui em São Paulo, além de criar novas articulações e me inserir nesta batalha pela Cultura Livre de uma maneira mais enfática. Nas próximas linhas, farei algumas reflexões sobre tudo o que vivenciei por lá.
Música livre, cultura livre, mídia livre, mente livre
Um dos principais assuntos abordados foi o compartilhamento de música. Com o advento da licença Creative Commons, que permite que a obra de artistas possa ser compartilhada sem que os direitos autorais sejam infringidos, muitas pessoas já se articulam para lutar pela maior difusão e compartilhamento de nossos acervos culturais. Um importante movimento chamado Música Para Baixar (MPB), surgido no ano passado, já congrega músicos independentes, organizados em torno do Copyleft, de várias cidades do Brasil.
É importante encampar essa defesa pelo Copyleft. Acredito que tenha de haver uma grande conscientização a respeito das vantagens de se compartilhar os novos produtos culturais que sejam produzidos. Afinal, sabemos que o modelo tradicional artista/intermediadores/público não é satisfatório. Devemos eliminar os intermediadores deste processo e, ao licenciar uma obra em Creative Commons, podemos ter uma relação artista/público mais direta e recompensadora. Como estas ideias ainda são novas e um tanto revolucionárias, acredito que precisaremos de um tempo para colocá-las em prática. Mas desde já, me disponho a fomentar esse debate e incentivar a cada um dos novos sambistas que desejam gravar e lançar seus trabalhos a encampar essa batalha, que visa uma maior autonomia para o artista que poderá se ver livre das amarras da indústria fonográfica.
Nossas leis de direitos autorais remetem ao tempo da ditadura, quando ainda nem sonhávamos com estas novas tecnologias que permitem a cópia e o compartilhamento de maneira tão simples. Nossas leis ainda nos remetem a um instrumento de arrecadação vergonhoso chamado ECAD, que recolhe de dinheiro dos gigantes, grandes, médios, pequenos e nanicos artistas para distribuir somente aos gigantes, justamente aqueles que pagam jabá para tocar na rádio. Uma vergonha.
Mas nossos artistas novos e independentes já perceberam que o que dá dinheiro são os shows e não a venda de discos. Então, mais interessante do que viver de esmolas das grandes gravadoras é fazer com que o público possa conhecer sua obra, para depois prestigiar o artista no show. Com o Copyleft, com as licenças Creative Commons, podemos fazer com que estas obras culturais se espalhem e atinjam rincões antes não atingidos em nossa sociedade.
Cultura é um direito universal e não um produto comercial. Temos que entender essa premissa de maneira enfática. E a todos os sambistas que desejam se ver livres das amarras da indústria fonográfica, unamo-nos!!!
3 de fevereiro de 2010
Comunas do samba - algumas reflexões
2 de fevereiro de 2010
Creative Commons
Dois de fevereiro (Dorival Caymmi)
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Agüenta a mão, João (Adoniran Barbosa - Hervé Cordovil)
22 de janeiro de 2010
21 de janeiro de 2010
Rádio Alambique do Samba ao vivo. Hoje!!
O Couro do Cabrito by André Carvalho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
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